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DO VÍCIO AO PROPÓSITO: reconstruindo a vida de dentro para fora

Você já reparou como a vida, às vezes, parece uma roda de hamster?

A gente corre, corre, corre… mas quando para, percebe que continua no mesmo lugar. O vício é assim: uma maratona sem chegada, onde as pernas queimam, o peito dói, e no final a única medalha que recebemos é o vazio.

Quem já mergulhou fundo na dependência sabe: não é apenas uma questão de gostar ou não de beber, usar, repetir comportamentos. É como se houvesse uma voz sussurrando no ouvido: “só mais um gole, só mais uma dose, só mais uma vez…”. Essa voz não grita, ela seduz. E quando percebemos, já não somos nós que escolhemos. A vida vira cativeiro com algemas invisíveis.

Mas chega uma hora em que o copo transborda.

E, ironicamente, não é de líquido. É de dor. É de perda. É de acordar um dia e perceber que não há mais chão. O fundo do poço tem muitas formas: pode ser um hospital, uma briga de família, uma recaída dolorida, ou simplesmente o espelho devolvendo um rosto que a gente não reconhece mais.

É nesse ponto que nasce uma pergunta: se não for para sobreviver anestesiado, para que viver?

 

O VÍCIO: UM ATALHO QUE COBRA PEDÁGIO

O vício é como aquele atalho que alguém indica: “vai por aqui que é mais rápido”. A gente acredita. A estrada parece fácil, o caminho parece promissor, mas lá no final descobre-se que era beco sem saída. O pedágio vem alto: relacionamentos quebrados, saúde abalada, sonhos adiados.

E o mais cruel é que a dependência não cobra de uma vez. Ela cobra em suaves parcelas. Uma gargalhada perdida aqui, um trabalho jogado fora ali, um amor que desiste de esperar. Até que, de repente, tudo que era sólido já virou pó.

 

A SOBRIEDADE: QUANDO O SILÊNCIO ASSUSTA

Sair do vício não é como apertar um botão de reset. Quem se liberta do excesso encontra, de cara, o silêncio.

E o silêncio pode ser ensurdecedor.

É como sair de uma festa barulhenta e dar de cara com a madrugada vazia. A princípio, dá medo. O corpo pede ruído, pede fumaça, pede confusão. Mas aos poucos, nesse silêncio, a vida começa a sussurrar coisas que o barulho sempre abafou: memórias, dores não resolvidas, sonhos que estavam guardados no sótão da alma.

A sobriedade não é um jardim pronto. É terra batida, que precisa ser cuidada. É enxada, semente, sol e chuva. Não se trata só de não beber, não usar, não repetir compulsivamente. Trata-se de aprender a estar consigo mesmo sem precisar fugir.

 

O PROPÓSITO: A FOME QUE NÃO ENGANA

Depois que o corpo se acostuma com a ausência da droga, começa a surgir outra fome: a de sentido.

Porque viver sóbrio sem propósito é como trocar o copo cheio por uma xícara vazia.

É aí que entra o projeto essencial.

Não um projeto de sobrevivência — pagar contas, cumprir tabela, agradar a todos. Mas algo que justifique levantar da cama. Algo que dê chão e asas ao mesmo tempo.

Um projeto essencial não precisa ser grandioso, não precisa ser capa de revista. Pode ser simples: reconstruir uma relação, cuidar de um jardim, escrever um livro, aprender uma arte, dedicar-se a ajudar quem ainda está preso na garrafa.

A diferença é que esse projeto vem de dentro, não é imposto de fora.

Nietzsche dizia que quem tem um “porquê” suporta qualquer “como”. E essa é a chave: o vício nos rouba o porquê; a sobriedade devolve a chance de descobri-lo.

 

GATILHOS EMOCIONAIS E A ARMADILHA DA RECAÍDA

Mas atenção: o caminho não é reto.

Há curvas perigosas, buracos, estradas mal sinalizadas. Chamamos esses lugares de gatilhos emocionais.

Um cheiro, uma música, uma lembrança… e pronto: a mente começa a maquinar o retorno. A recaída nunca começa no copo ou no pó. Ela começa no pensamento: “será que só hoje?”, “eu mereço”, “ninguém vai saber”.

É como um ladrão que não arromba a porta de frente: ele entra por uma fresta esquecida.

Por isso, parte da reconstrução é aprender a reconhecer essas frestas. Não para viver com medo delas, mas para criar um ambiente interno mais sólido.

É perceber: “esse vazio que estou sentindo não é sede de álcool, é fome de vida”.

 

RECONSTRUINDO DE DENTRO PARA FORA

A dependência é como uma casa em ruínas.

Podemos até pintar a fachada, mas se as vigas internas estiverem podres, tudo cai de novo.

A reconstrução precisa começar pelo alicerce: valores, autenticidade, escolhas conscientes.

A autenticidade é quando finalmente conseguimos olhar no espelho e ver, não um personagem, mas nós mesmos. Sem disfarces, sem máscaras. É duro no começo, porque a verdade pode doer. Mas é justamente ela que dá a força para não se perder de novo.

A vida sem anestesia é crua, mas é real. E o real, mesmo áspero, é o único lugar onde a liberdade pode florescer.

 

UM BRINDE DIFERENTE

Do vício ao propósito, o caminho não é linear. É cheio de tropeços, dúvidas, recomeços. Mas é também cheio de descobertas.

A grande virada não está em deixar de beber ou usar. Está em descobrir que a vida, quando vivida de dentro para fora, é infinitamente mais intensa do que qualquer anestesia poderia oferecer.

Não se trata apenas de sobreviver.

Trata-se de viver com um propósito que não se evapora, que não acaba na ressaca.

Um brinde, então — não ao álcool, não à fuga.

Um brinde à coragem de ser quem se é, com toda a autenticidade que a sobriedade permite.

 


Rafa Pessato

Especialista em Autoconhecimento e Comportamento

rafapessato.eu