Tem gente que acha que parar é fracasso. Que desacelerar é desistir. Que descansar é preguiça. Mas talvez o que ninguém te contou é que, às vezes, parar é o único jeito de voltar a existir de verdade.
Num mundo onde tudo exige que a gente “seja alguém” — produtivo, feliz, bonito, interessante, presente — a maior coragem pode ser simplesmente estar. Estar sem fingir. Estar sem render. Estar sem precisar anestesiar a dor com um copo cheio.
A NÁUSEA DO EXCESSO: QUANDO TUDO É DEMAIS
Tem dias em que tudo cansa. Até o que antes parecia leve. A rotina vira um enredo sem autoria, onde a gente repete ações como um personagem que esqueceu do enredo. Esse cansaço não é só físico: ele é ontológico. A gente se cansa de ser o que não escolheu ser.
Foi Jean-Paul Sartre quem chamou isso de “náusea”. Um tipo de enjoo diante da existência sem sentido. É essa náusea que muitos tentam calar com álcool — não pelo gosto, mas pela fuga. Fugir da liberdade de escolher. Fugir do peso de existir.
O álcool, nesse cenário, não é só vício: é alívio. Uma suspensão momentânea do absurdo. Um atalho ilusório para fugir de um mundo onde tudo exige performance.
O COPO QUE MASCARA O VAZIO
Beber pode parecer uma maneira de se livrar da angústia. Mas é só um disfarce. A angústia, como dizia Kierkegaard, é o “tontura da liberdade”. Um sinal de que estamos diante de escolhas reais — e da responsabilidade de existir sem manual.
A sobriedade, então, não é abstinência moral. É retorno. É a coragem de encarar a angústia de frente, de voltar a sentir. Porque sentir dói, mas também revela. Na sobriedade, o vazio aparece — mas, pela primeira vez, é real. E o real, por mais duro que seja, é sempre mais digno do que a mentira confortável do entorpecimento.
O CORPO COMO TERRITÓRIO: DO EXÍLIO À PRESENÇA
Viver acelerado é viver exilado de si. É habitar o corpo como se fosse uma máquina. Mas o corpo pede descanso, pede presença, pede escuta. E escutar o corpo é, muitas vezes, o primeiro passo da liberdade.
Simone de Beauvoir dizia que o ser humano não “é”, mas “se faz”. Escolher desacelerar é um ato de autoria. É sair do script. É negar a lógica do capital que exige produção constante e aceitar a lógica do ser — que exige apenas tempo, espaço e silêncio.
DESISTIR DE PERFORMAR: UM GESTO RADICAL
A vida não precisa ser rentável. Nem você. Existe beleza em não render. Existe coragem em não cumprir a expectativa. Em dizer não. Em repousar.
Albert Camus escreveu que a única questão filosófica verdadeiramente séria é o suicídio — mas talvez, para muitos de nós, a pergunta mais urgente seja: como continuar vivo num mundo que não nos permite existir com leveza?
A resposta pode estar justamente no ato de parar. De sair do giro. De recusar a lógica do desempenho. De dizer: “não, hoje eu não vou”. E tudo bem.
A SOBRIEDADE COMO PRESENÇA E COMO CRIAÇÃO
Na sobriedade, não há mais distração. Só o agora. Só o que você sente. E isso, no começo, pode assustar. Mas também pode libertar. É o ponto zero: onde o ser se recria.
Ao contrário do que dizem, estar sóbrio não é se “privar da vida”. É, justamente, começar a vivê-la. É estar presente no gesto de fazer café, no toque de um vento, no silêncio de uma manhã sem ressaca.
Desacelerar é o novo sucesso porque é uma forma de recuperar o próprio tempo. De se rebelar contra a agenda do mundo. De voltar a existir por si — e não pelo que esperam de você.
A ARTE DE VIVER SEM RENDER CONTA
Escolher a sobriedade é, de certa forma, um ato de desobediência civil. É se recusar a continuar rodando no automático. É parar de se violentar em nome de uma produtividade que nunca basta.
É viver como Camus propõe: sem ilusões, mas com dignidade. Assumindo a vida como ela é — absurda, incerta, às vezes dolorosa — mas sua. E isso basta.
Se tudo que esperam de você é performance, desacelerar é resistência. Se tudo que te vendem é anestesia, sentir é coragem. Se tudo que você quer é paz, talvez o caminho não seja fazer mais — mas fazer menos. Estar mais. Respirar mais. Sentir mais.
Porque, no fim das contas, talvez o verdadeiro sucesso seja esse: estar inteiro. Estar lúcido. Estar vivo.
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento
rafapessato.eu