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DEPRESSÃO LÍQUIDA: Quando o álcool não anestesia mais — ele aprofunda o vazio

Durante muito tempo, o álcool se apresenta como solução. Ele relaxa o corpo, alivia a ansiedade, suaviza o pensamento acelerado e cria a sensação provisória de descanso emocional. Para muitos alcoolistas, especialmente aqueles que bebem de forma funcional, o álcool não surge como excesso, mas como regulador: da tensão, do sono, do humor, da vida social. O problema é que essa promessa tem prazo de validade. E quando ela expira, o que antes parecia alívio começa a se revelar como um processo silencioso de depressão.

É nesse ponto que muitos podem se perguntar, ainda confusos: “Estou deprimido ou o álcool está me deixando assim?” A resposta, segundo a ciência, a psiquiatria e a psicanálise, costuma ser desconfortável: as duas coisas não apenas coexistem, como se alimentam mutuamente.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o uso prolongado de álcool é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos depressivos. Não se trata apenas de uma correlação estatística, mas de uma relação causal bem documentada: o álcool altera o funcionamento do sistema nervoso central, interfere nos neurotransmissores responsáveis pela regulação do humor e compromete, ao longo do tempo, a capacidade do cérebro de produzir prazer, motivação e estabilidade emocional sem a substância.

 

O ÁLCOOL COMO DEPRESSOR DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL

Do ponto de vista médico, o álcool é classificado como um depressor do sistema nervoso central. Isso significa que ele reduz a atividade cerebral, desacelerando funções cognitivas, emocionais e motoras. Segundo o National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA), o álcool atua principalmente sobre sistemas como o GABA (inibitório), o glutamato (excitador), a dopamina (recompensa e motivação) e a serotonina (modulador do humor). No curto prazo, essa ação gera relaxamento e desinibição. No médio e longo prazo, porém, o cérebro tenta compensar essa interferência química, aumentando estados de alerta, ansiedade e instabilidade emocional.

O resultado é um paradoxo conhecido por muitos alcoolistas: quanto mais se bebe para aliviar a angústia, mais frágil se torna a capacidade de lidar com ela sem beber. O organismo passa a depender da substância não para sentir prazer, mas para evitar o mal-estar que surge na sua ausência. É nesse ciclo que a depressão começa a se instalar — não como um colapso súbito, mas como um rebaixamento progressivo da experiência de estar vivo.

 

DEPRESSÃO LÍQUIDA: UM SOFRIMENTO QUE NÃO SE IMPÕE, MAS SE INFILTRA

A depressão associada ao álcool raramente começa de forma dramática. Ela não explode; ela escorre. O alcoolista continua trabalhando, mantendo relações, cumprindo obrigações. Por fora, tudo parece em ordem. Por dentro, algo se esvazia. O prazer diminui, a curiosidade se apaga, o entusiasmo encurta. A vida passa a ser vivida no modo “funcional”, não no modo “presente”.

Estudos epidemiológicos citados pela OMS indicam que grande parte das pessoas com dependência de álcool permanece por anos em estados subclínicos de depressão, caracterizados por fadiga constante, sensação de vazio, dificuldade de sentir prazer (anedonia) e perda gradual do sentido. Essa forma de depressão é particularmente perigosa porque se normaliza. O sujeito não se sente “doente o suficiente” para pedir ajuda, mas tampouco se sente vivo o bastante para desejar outra coisa.

 

DEPRESSÃO INDUZIDA POR ÁLCOOL

O DSM-5-TR, manual diagnóstico da Associação Psiquiátrica Americana, reconhece oficialmente o Transtorno Depressivo Induzido por Substância. Esse diagnóstico é aplicado quando sintomas depressivos persistentes estão diretamente relacionados ao uso contínuo de álcool e não existiam — ou não tinham a mesma intensidade — antes do consumo.

Isso desloca uma ideia muito comum entre alcoolistas: a de que o álcool é apenas uma tentativa de lidar com uma depressão prévia. Em muitos casos, a clínica mostra o inverso: o álcool é o fator que estrutura e mantém o quadro depressivo. A pessoa bebe para dormir, acorda pior; bebe para aliviar a ansiedade, sente-se mais vazia; bebe para “dar conta da vida”, mas perde, aos poucos, a capacidade de se afetar por ela.

 

COMA ALCOÓLICO: O LIMITE BIOLÓGICO DA DEPRESSÃO

No extremo desse espectro está o coma alcoólico. Do ponto de vista da medicina, trata-se da expressão máxima da depressão do sistema nervoso central, com risco real de morte por falência respiratória. Segundo o NIAAA, níveis elevados de álcool no sangue podem suprimir funções vitais básicas, levando à perda de consciência, reflexos e controle respiratório.

Do ponto de vista psíquico, o coma alcoólico levanta uma pergunta fundamental, frequentemente mal compreendida: trata-se de desejo de morrer ou de desejo de não sentir mais dor? A literatura clínica é clara ao mostrar que, na maioria dos casos, não há intenção suicida consciente, mas um esgotamento radical da capacidade de sustentar sofrimento emocional. Não seria exatamente uma pulsão de morte, mas um colapso da tolerância à existência.

 

INSÔNIA TERMINAL: QUANDO O ÁLCOOL ROUBA O SONO QUE PROMETEU

Outro sintoma recorrente da depressão associada ao álcool é a insônia terminal: acordar cedo demais, com sensação de angústia, culpa ou vazio. De acordo com a American Academy of Sleep Medicine, o álcool fragmenta o sono e reduz o sono REM, fase essencial para a regulação emocional e a consolidação da memória.

O alcoolista bebe para dormir, mas não descansa. Dorme, mas não se restaura. Acorda cansado, emocionalmente exposto, e passa o dia tentando se proteger — muitas vezes bebendo novamente. Forma-se um ciclo fechado em que o álcool se apresenta como solução para o problema que ele próprio criou.

 

DEPRESSÃO NÃO É TRISTEZA — E CONFUNDIR ISSO APROFUNDA O SOFRIMENTO

É importante distinguir tristeza de depressão. A tristeza é parte constitutiva da experiência humana. A depressão, segundo a clínica, envolve persistência, prejuízo funcional e perda da capacidade de se afetar pela vida. Nem todo dia ruim é depressão. Mas quando o álcool passa a ser a principal ferramenta para atravessar qualquer desconforto, algo essencial está sendo evitado.

A filosofia existencial sempre alertou para esse ponto: eliminar o sofrimento não é possível. Tentar anestesiá-lo empobrece a experiência de existir. O álcool promete uma saída rápida para conflitos que exigem elaboração lenta. E toda saída rápida, quando se trata da psique, cobra juros altos.

 

O ÁLCOOL COMO DEFESA PSÍQUICA

Na leitura psicanalítica, o álcool pode ser compreendido como uma defesa. Ele regula afetos que não encontraram simbolização: angústia, medo, culpa, vazio. Freud já apontava que aquilo que não é elaborado retorna como sintoma. O álcool não resolve o conflito; apenas o adia. Com o tempo, o sujeito já não bebe para sentir prazer, mas para não sentir demais.

E é nesse ponto que a depressão se instala não como evento isolado, mas como consequência lógica de uma vida emocional cronicamente evitada.

 

DESPERTAR NÃO É MELHORAR — É PARAR DE SE ENGANAR

Este texto não oferece promessas fáceis. Ele oferece lucidez. Segundo a OMS, o álcool está entre os principais fatores associados a transtornos mentais comuns no mundo. Reconhecer isso não resolve tudo, mas muda o ponto de partida. Não se trata de moral, força de vontade ou vergonha. Trata-se de compreender que não há como anestesiar a vida sem, junto, anestesiar o sentido de estar vivo.

Talvez a questão não seja “como parar de sentir isso”, mas o que em mim está pedindo escuta há tempo demais. Enquanto o álcool ocupar o lugar de resposta, a pergunta continuará retornando — cada vez mais intensa.

 


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu