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DEPOIS DE QUANTO TEMPO BEBENDO ALGUÉM SE TORNA ALCOOLISTA?

Talvez essa nem seja a pergunta certa.

Essa é uma pergunta comum em textos técnicos, manuais diagnósticos e discussões acadêmicas.

Mas nem sempre é a pergunta que atravessa quem bebe e sofre.

Quem está em conflito com o álcool não acorda pensando em CID, OMS ou critérios clínicos.

Acorda pensando em como chegou ali. Ou em como vai atravessar o dia.

Por isso, antes de responder “depois de quanto tempo alguém se torna alcoolista”, talvez seja necessário fazer outra coisa: deslocar o eixo da pergunta.

A PERGUNTA TÉCNICA VS. A PERGUNTA EXISTENCIAL

Do ponto de vista científico, a resposta é clara: a Organização Mundial da Saúde (OMS) não fixa um tempo único para que o alcoolismo se instale.

A dependência alcoólica não é definida por anos de consumo, mas por critérios comportamentais e subjetivos, como:

  • perda de controle sobre o beber
  • necessidade crescente (tolerância)
  • sofrimento psíquico
  • repetição do uso apesar das consequências

Estudos clínicos, contudo, mostram que, em média, o processo pode levar anos — muitas vezes entre 5 e 15 anos de uso regular e pesado.

Mas isso é uma média estatística, não uma regra.

Na prática clínica, essa pergunta — “quanto tempo demora?” — ajuda pouco quem sofre.

O TEMPO ENGANA

Há pessoas que bebem por décadas sem preencher critérios diagnósticos clássicos.

E há pessoas que, em poucos anos — ou até meses —, já vivem uma relação devastadora com o álcool.

Isso acontece porque o alcoolismo não é uma doença do relógio. É uma doença da relação.

Não é o tempo que define.

É o lugar que o álcool ocupa na vida do sujeito.

O QUE REALMENTE IMPORTA SABER

Na clínica, a pergunta que faz diferença não é:

“Já virei alcoolista?”

Mas:

  • O álcool virou minha principal forma de lidar com a vida?
  • Eu bebo para desligar, anestesiar, suportar?
  • Prometo parar e não consigo?
  • Sinto culpa, vergonha ou medo depois de beber?
  • O álcool está me afastando de quem eu sou — ou de quem eu gostaria de ser?

Essas perguntas não dão um diagnóstico imediato.

Mas dão algo mais importante: consciência.

VOCÊ NÃO PRECISA DE UM RÓTULO PARA PARAR

Um dos maiores equívocos culturais sobre o alcoolismo é a ideia de que só quem “é alcoolista” precisa parar de beber.

Isso faz com que muita gente permaneça bebendo, sofrendo e se violentando internamente enquanto repete:

“Ainda não cheguei lá.”

“Não é tão grave.”

“Tem gente pior.”

Na prática, o sofrimento não espera um laudo para existir. Você não precisa se chamar de alcoolista para repensar o álcool.

Você só precisa reconhecer que essa relação já não está boa.

QUANDO O ÁLCOOL VIRA RESPOSTA AUTOMÁTICA

Do ponto de vista psicanalítico, o problema não é a substância em si. É quando ela deixa de ser escolha e vira resposta automática.

Quando o álcool passa a ocupar o lugar de:

  • regulador emocional
  • anestésico da angústia
  • mediador das relações
  • fuga de si

Nesse momento, algo essencial está sendo terceirizado.

O sujeito já não bebe apenas por prazer. Bebe para não sentir, não pensar, não sustentar o próprio desejo.

EXISTENCIALMENTE FALANDO: O ÁLCOOL COMO ADIAMENTO DA VIDA

Sob uma perspectiva existencial, o alcoolismo pode ser lido como uma forma de adiar o encontro consigo.

O álcool suspende momentaneamente:

  • a responsabilidade
  • a angústia
  • a pergunta sobre quem se é e o que se faz da própria vida

Mas o preço vem depois. E vem alto.

O dia seguinte cobra o que a noite anestesiou.

DESPERTAR NÃO É PARAR — É VER

Esta seção do portal se chama DESPERTAR por um motivo.

Despertar não é, necessariamente, decidir parar hoje.

Despertar é não conseguir mais fingir que não vê.

É quando a pergunta muda de forma:

“Será que isso ainda faz sentido?”

“Por que preciso beber para viver?”

“O que estou evitando sentir?”

Esse deslocamento já é um começo.

SE O ÁLCOOL ESTÁ TE FAZENDO MAL, ISSO JÁ É SUFICIENTE

Talvez você nunca saiba exatamente “quando” teria se tornado alcoolista.

E tudo bem.

O ponto não é esse.

Se o álcool:

  • te envergonha
  • te fragmenta
  • te afasta de si
  • te aprisiona em ciclos repetitivos

Então a questão não é diagnóstico.

É cuidado.

UM CONVITE HONESTO

Repensar o álcool não é radicalismo. É maturidade.

Parar de beber não é punição.

É, muitas vezes, um gesto de lucidez.

E a sobriedade, quando não nasce do medo,

pode nascer de algo muito mais potente:

o desejo de viver inteiro.


Rafa Pessato

Embriague-se de si!

rafapessato.eu