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DEPENDÊNCIA: sobre chupetas, copos e outras anestesias

Ultimamente, virou moda adulto de chupeta. Gente crescida de fralda no bolso, plástico na boca para aliviar estresse, ansiedade, insônia — ou só para não acender mais um cigarro. A tendência começou na China e, como tudo que viraliza, logo estava nas manchetes ocidentais.

Para quem está sóbrio — ou tentando — a cena pode parecer apenas excêntrica. Mas, olhando com atenção, não é tão diferente do que acontece com o álcool, as redes sociais ou aquela compra impulsiva. A chupeta não é o problema, é o sintoma de algo mais fundo.

CHUPETA OU ÁLCOOL: O QUE REALMENTE BUSCAMOS?

Quem está de boca cheia de plástico não está faminto por polímero. Está faminto por descanso, por colo, por sossego. Da mesma forma, quem enche o copo compulsivamente não está sedento de vinho, cerveja ou destilado; está sedento de paz, de anestesia contra a solidão, contra a cabeça que não para.

A substância (ou o objeto) é só o Uber. O motor da dependência é interno: aquela vontade de calar o incômodo que não se sabe enfrentar.

 

SINTOMAS: QUANDO O BURACO É MAIS EMBAIXO

Na psicanálise e na filosofia existencial, há um consenso: o que tentamos calar com anestesias sempre retorna, como uma dívida esquecida. Álcool, chupeta, tela, compras… tudo serve para mascarar o sintoma.

Só que, se você foca só em “tirar a bebida” ou “jogar fora a chupeta”, não resolve nada. Se a raiz — solidão, vazio, dor sem nome — permanece intacta, o cérebro encontra outro consolo qualquer. Se não é o copo, é o chocolate; se não é o chocolate, é a fralda (cada um com sua sofisticação).

 

WINNICOTT, OBJETO TRANSICIONAL E OUTRAS CRIATIVIDADES

Aqui entra Donald Winnicott, psicanalista inglês, que criou o conceito de objeto transicional. Ele observava bebês agarrados à fralda, ao ursinho, à chupeta — tudo para driblar a angústia da separação da mãe. O objeto não é a mãe, tampouco é só brinquedo. É ponte: sustenta a criança enquanto ela atravessa o abismo do crescimento.

Winnicott resumiu:

“O objeto transicional é a primeira posse ‘não-eu’. Ele ajuda o bebê a atravessar a área entre a ilusão de onipotência e a realidade externa.” (Playing and Reality, 1971)

Traduzindo: é o jeito de segurar a onda quando o mundo exige mais do que a criança pode entregar.

Mas nem todo adulto aprende a construir novas pontes. Muitos seguem chupando “chupetas simbólicas”: álcool, drogas, comida, redes sociais, compras, trabalho compulsivo — escolha livre.

Assim, o álcool pode ser considerado um objeto transicional tardio. Dá sensação de acolhimento, alivia solidão e ansiedade, faz parecer que temos controle. O problema é quando a ponte deixa de ser travessia e vira apoio artificial: em vez de ajudar a seguir, mantém a pessoa parada. Taça, chupeta ou cartão de crédito: tudo anestesia, nada ensina a viver.

 

A ILUSÃO DO ALÍVIO IMEDIATO

Álcool e chupeta têm muito em comum:

  • Conforto instantâneo (um gole ou uma mordida de plástico aliviam na hora).
  • Sensação enganosa de relaxamento.
  • Fuga da dor sem precisar encará-la.

 

Só que o preço é alto. O álcool cobra caro: fígado, cérebro, relações familiares. A chupeta adulta parece inofensiva, mas o risco maior é o mesmo — a incapacidade de lidar com a vida sem um atalho de anestesia. O que está em jogo não é o objeto, mas o que ele esconde.

 

O DESPERTAR: OLHAR ALÉM DA SUBSTÂNCIA

Perceber isso é libertador — quase tão bom quanto um gole gelado. Quando você entende que o problema não é o álcool em si, mas a busca que existe por trás dele, abre-se uma nova porta: investigar a raiz da dor, em vez de combater só a garrafa.

O mesmo vale para a chupeta. O que ela revela? Talvez cansaço, excesso de cobrança, falta de colo. Ou talvez só a dificuldade universal de ficar sóbrio diante do próprio espelho.

 

CAMINHO PRÁTICO PARA QUEM BUSCA SOBRIEDADE

  • Nomeie o sintoma: “Bebo para não sentir minha solidão” ou “Uso chupeta para não encarar meu estresse”.
  • Questione a necessidade real: O que me falta que procuro fora? Qual dor estou tentando anestesiar?
  • Substitua com consciência: respiração, escrita terapêutica, meditação, caminhada, respiração profunda.
  • Busque apoio: terapia, grupos de sobriedade, comunidade de quem compartilha a travessia.

 

CADA UM CHUPA O QUE QUER

No fim das contas, chupeta e álcool falam da mesma coisa: dificuldade de lidar com a dor sem anestesia. São símbolos diferentes do mesmo desejo de fugir do vazio.

Mas há outro caminho. Não é fácil, nem rápido, mas é o único que oferece frutos duradouros: olhar para dentro, enfrentar o desconforto e aprender a viver sóbrio — sem precisar de chupetas emocionais.

Sobriedade não é só não beber — é viver de frente, sem disfarces.

 

E aqui vai minha ironia pessoal: cada um chupa o que quiser. Eu, como alcoolista em remissão, não julgo ninguém. Já tive minha própria “chupeta líquida” chamada álcool. O que quero propor é reflexão: o que esses objetos de consolo dizem sobre nós?

 

PRÁTICA EXISTENCIAL: IDENTIFICANDO SUA “CHUPETA”

  1. Pare alguns minutos em silêncio, sem distrações. Respire fundo três vezes.
  2. Pergunte: “Qual é a minha chupeta?” ou “O que tenho usado para anestesiar minha dor ou meu vazio?”
  3. Escreva: Quando costumo recorrer a isso? O que estou tentando evitar sentir?
  4. Dê nome à emoção: solidão, medo, ansiedade, cansaço.
  5. Escolha um substituto saudável hoje: caminhar, escrever, respirar conscientemente, ouvir uma música que acalma.

Esse exercício não é sobre eliminar a bebida ou qualquer hábito de uma vez. É sobre despertar consciência. Porque, no fundo, a chupeta, o álcool ou a tela não são os vilões — são sinais. E todo sinal aponta um caminho. O seu pode ser o da sobriedade, autenticidade e vida com sentido.

Agora, quem quiser, que chupe o que quiser. Desde que saiba o que está buscando.

 


Rafa Pessato

Especialista em Autoconhecimento e Comportamento

rafapessato.eu