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COMO PARAR DE BEBER: estratégias práticas para dar os primeiros passos

Um convite ao despertar, à autenticidade e à sobriedade

Há uma sede que ultrapassa os limites do corpo, um vazio que tinge as manhãs de cinza e sal. É como acordar em um quarto inundado de memórias, com o cheiro adocicado da ressaca misturado ao perfume de promessas não cumpridas. Ninguém escolhe voluntariamente o abismo, assim como ninguém se deixa arrastar pela tempestade sem antes escutar, de longe, o sussurro do vento. A dependência é este vento invisível, ora brisa, ora vendaval, ecoando no fundo de cada gesto automático, de cada copo erguido ao esquecimento.

A vida, por vezes, se mostra um labirinto kafkiano, repleto de portas trancadas por dentro, e quando a compulsão se instala, os corredores parecem infinitos. Mas existe um lampejo, uma fresta de luz através das grades da rotina: o desejo de sobriedade, a vontade de reencontrar a própria autenticidade.

 

O MOSAICO DA DEPENDÊNCIA: ENTRE DOR E DESEJO

A dependência não é só química, é existencial. Ela mora nas lacunas da alma, nos começos interrompidos, nos finais adiados. É uma poesia torta que insiste em rimar o desespero com o alívio fugaz. O álcool, para tantos, não é apenas substância — é ritual, é anestesia, é redenção temporária diante de uma vida desordenada por gatilhos emocionais que surgem como fantasmas: rejeição, angústia, solidão, celebração, medo.

Versos de Clarice Lispector sussurram que “viver ultrapassa qualquer entendimento”, e há algo de sagrado em assumir, diante do espelho, que a sede que consome não é só física, mas metafísica. O processo de transformação se inicia nesse reconhecimento, nesse instante de lucidez em que a pessoa se vê, por um segundo, fora do ciclo de recaída e compulsão.

PRIMEIROS PASSOS: O SILÊNCIO QUE PREPARA O SALTO

O caminho para a sobriedade não começa com uma decisão grandiosa, mas com um gesto pequeno, quase invisível: o silêncio diante do desejo de beber, o espaço entre o impulso e o ato. Winnicott ensina que a autenticidade brota no instante em que ousamos ser verdadeiros, mesmo que isso doa. E é no silêncio que o indivíduo escuta o ruído dos próprios gatilhos emocionais, percebe os mecanismos ocultos que alimentam a dependência.

Identificar esses gatilhos é como aprender a ouvir a melodia subterrânea que rege o caos. O cheiro da chuva pode ser lembrança de uma infância ferida, o som de uma música pode evocar uma perda, o encontro com amigos pode, paradoxalmente, trazer à tona a sensação de abandono. Não há fórmula pronta; há, sim, uma escuta radical de si mesmo, como quem explora um território desconhecido.

 

O RITUAL DO DESPERTAR: ESTRATÉGIAS PRÁTICAS QUE NÃO SÃO MANUAIS

Parar de beber é menos sobre negar o copo e mais sobre afirmar a vida. A sobriedade não é ausência, mas presença: presença no próprio corpo, nos próprios sentimentos, nas próprias escolhas. Estratégias práticas brotam da experiência de cada dia, do esforço de construir, tijolo por tijolo, uma nova paisagem interna.

  • Reconexão com o propósito: Viktor Frankl, em sua travessia pelo absurdo, encontrou sentido onde tudo parecia perdido. Assim, quem busca sobriedade precisa redescobrir o próprio motivo para levantar da cama, para sorrir sem anestesia. O sentido não é dado, é criado — e a cada manhã, pode ser reinventado.
  • Rede afetiva: Não há vitória solitária. A dependência, como sombra, só se dissipa quando exposta à luz do coletivo. Buscar pessoas que entendam, que acolham sem julgamento, é fundamental. Um grupo de apoio, um amigo, até mesmo um estranho que escute sem pressa: a autenticidade se fortalece na partilha.
  • Criação de rituais saudáveis: O corpo, viciado em repetição, pede novos significados. Substituir o copo por um chá, a noite vazia por um passeio, a conversa ensimesmada por um diário. Pequenos gestos que, somados, desenham um novo horizonte de possibilidades.
  • Abraço da vulnerabilidade: A recaída não é fracasso — é parte do percurso. Como escreveu Nietzsche, “aquilo que não nos destrói, nos fortalece”. Cair, levantar, errar e tentar de novo é a dança que nos humaniza. Olhar para a própria queda com ternura, sem julgamento, é talvez o ato mais revolucionário da jornada.

 

A TRAVESSIA: ENTRE RECAÍDA E RENASCIMENTO

A recaída, esse monstro sutil, espreita nas esquinas do cotidiano. Às vezes, veste o rosto de uma comemoração inocente, outras vezes se esconde atrás de um cansaço profundo. O caminho da sobriedade é feito de tropeços, como quem aprende a andar de novo após uma longa noite de insônia. “O importante”, sussurra Kafka em seu diário, “é resistir à tentação de desistir”.

A transformação não é linear; é espiral. Cada tentativa é um renascimento, cada noite sóbria é uma pequena vitória. O autocuidado, o autoconhecimento e a busca por autenticidade são os alicerces do novo ser que se desenha. Quem decide parar de beber está, antes de tudo, escolhendo viver com sentido — mesmo diante do absurdo.

O HORIZONTE DEPOIS DA TEMPESTADE

O que resta, depois da tempestade, é o céu limpo, ainda que marcado por nuvens passageiras. Parar de beber é aprender a contemplar esse céu, a reconhecer as próprias cicatrizes, a celebrar cada manhã como um novo começo. Não há promessas fáceis, mas há esperança: esperança de reencontrar a própria voz, de dançar ao som de uma melodia não ditada pelo álcool, de construir uma vida autêntica, marcada pela sobriedade e pelo sentido.

Que cada leitor se permita despertar, mesmo que seja aos poucos, mesmo que seja com medo. Há beleza no tropeço, há poesia no recomeço. E como diria Clarice Lispector, “ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam”. Talvez a sobriedade seja esse anjo — invisível, mas sempre presente, esperando para ser notado.

COMO IDENTIFICAR OS GATILHOS QUE ALIMENTAM SUA DEPENDÊNCIA

Despertar é acordar para si mesmo, é observar sem pressa as paisagens internas que costumam passar despercebidas no ruído da rotina. Os gatilhos emocionais são como sementes plantadas há muito tempo, germinando em momentos de fragilidade ou celebração. O convite é para que cada pessoa olhe para dentro, encontre — sem pressa, sem julgamento — os gestos, os sons, os lugares, as pessoas que funcionam como chaves para a porta da compulsão.

Sentir não é pecar; é necessário. O autoconhecimento começa com uma pergunta: “O que em mim pede o alívio do álcool?” Talvez seja a dor antiga, talvez seja o desejo de aceitação, talvez seja o tédio ou o medo do desconhecido. Identificar esses gatilhos é um exercício de presença radical — estar inteiro no próprio corpo e na própria história, como quem recolhe fragmentos de si para montar um mosaico de sentido.

E então, na travessia entre desejo e escolha, nasce a possibilidade do despertar: um passo de cada vez, uma sensação de cada vez, sem pressa de chegar, sem medo de voltar atrás. O importante é não perder a escuta, não abandonar a própria companhia. Os gatilhos não são inimigos, mas sinais de que há algo a ser cuidado, acolhido, transformado.

 


Rafa Pessato

Especialista em Autoconhecimento e Comportamento

rafapessato.eu