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AUTOENGANO ALCOÓLICO: como a mente justifica o injustificável

Por que pessoas inteligentes continuam bebendo mesmo quando tudo em volta implora por mudança?

É uma pergunta incômoda. Talvez você já a tenha feito para si mesmo depois de mais uma recaída. Ou talvez tenha sussurrado entre dentes cerrados ao ver alguém que ama mergulhar novamente no copo: “como pode?”. A resposta, ao contrário do que muitos pensam, não está na falta de força de vontade. Está, principalmente, no mais engenhoso truque que o cérebro humano já inventou: o autoengano.

Neste artigo, vamos atravessar essa neblina com coragem. Sem moralismo, sem romantismo. Vamos entender como o cérebro justifica o injustificável quando o assunto é o álcool — e o que pode, enfim, abrir espaço para a verdade interna voltar a respirar.

 

A MENTE É UM EXCELENTE CONTADOR DE HISTÓRIAS. E ALGUMAS DELAS SÃO MENTIRA.

Não estamos falando de mentira comum. A mentira do autoengano é sutil, convincente e, o mais perigoso, acolhedora. Ela protege o sujeito da dor imediata, da vergonha, da angústia existencial. E o álcool se encaixa perfeitamente como instrumento para essa anestesia emocional.

Robert Trivers, biólogo evolucionista, já alertava que o autoengano evoluiu como uma estratégia adaptativa. Mentir para si mesmo, do ponto de vista evolutivo, ajudava a mentir melhor para os outros — com convicção. Mas quando isso se instala num sistema já fragilizado pelo uso de substâncias psicoativas, como o álcool, a distorção da realidade pode se tornar uma prisão invisível.

“Eu bebo socialmente.”

“Eu paro quando quiser.”

“Pelo menos eu não uso drogas.”

“Eu mereço relaxar depois do dia que tive.”

Frases como essas não são apenas desculpas jogadas ao vento. Elas são manifestações neuroquímicas de um cérebro tentando manter sua zona de conforto — mesmo que essa zona esteja pegando fogo.

 

O CÉREBRO ALCOÓLICO: O ENGENHEIRO DAS DESCULPAS

A dependência de álcool altera profundamente o funcionamento de estruturas cerebrais ligadas ao julgamento, à tomada de decisão e à autoavaliação. A principal delas é o córtex pré-frontal, responsável por avaliar riscos, planejar ações e frear impulsos. Em usuários crônicos, essa região sofre uma espécie de apagão funcional — e, com isso, o impulso ganha poder, e o senso crítico regride.

Simultaneamente, o sistema de recompensa — principalmente o circuito dopaminérgico que envolve o núcleo accumbens — passa a ser hipersensível aos estímulos relacionados ao álcool. Basta ver um copo ou imaginar o “gostinho da primeira dose” para uma descarga de antecipação prazerosa inundar o sistema nervoso.

Mas eis o detalhe mais perverso: quanto mais o álcool interfere nessas estruturas, mais o cérebro se torna habilidoso em criar justificativas para continuar bebendo. Um paradoxo: a mente se degenera na lógica, mas aprimora sua retórica para manter o ciclo.


 

AUTOENGANO É ANESTESIA EMOCIONAL COM ASSINATURA NEUROLÓGICA

Um estudo publicado na Neuroscience & Biobehavioral Reviews (Sayette et al., 2012) mostrou que a exposição a gatilhos relacionados ao álcool ativa intensamente o sistema límbico — especialmente a amígdala e o hipocampo — regiões envolvidas na memória emocional. Isso significa que, ao ver um copo de vinho, o cérebro não lembra da ressaca ou das brigas, mas do alívio, da festa, do riso anestesiado.

É como se a mente dissesse: “Veja! Isso te faz bem!”

E o corpo, obediente, segue.

Mas a verdade não está na memória dopaminérgica. Está no silêncio que vem depois. Está na culpa, no cansaço, no “eu jurei que não ia mais fazer isso”. Está naquilo que o cérebro tenta enterrar — e o corpo tenta esquecer.

 

A DESCONEXÃO DA VERDADE: COMO O ÁLCOOL NOS AFASTA DE NÓS MESMOS

O maior perigo do autoengano alcoólico não está apenas nos danos físicos ou nos prejuízos sociais. Está na ruptura com a própria consciência.

Quando uma pessoa mente para si continuamente sobre os motivos pelos quais bebe, ela se desconecta do seu sentir real. Cria-se um espaço entre a dor original (medo, solidão, raiva, frustração) e a consciência que poderia acolher essa dor. O álcool entra nesse vácuo, como uma ponte podre entre duas margens.

E sem essa reconexão, nenhuma mudança se sustenta.

 

RECONEXÃO INTENCIONAL: O QUE ACONTECE QUANDO A VERDADE VOLTA A RESPIRAR

A Reconexão Intencional, uma das etapas do meu método CER (Ciclo Essencial de Realização), é o processo de retornar ao núcleo do ser — ao ponto onde a verdade não é mais evitada, mas acolhida. É quando a pessoa decide parar de brigar com o que sente, e começa a escutar o que precisa.

Esse processo exige coragem, sim. Mas também exige um passo anterior: reconhecer que o cérebro não é confiável quando está viciado.

A mente, mente. Mas o corpo sabe. O corpo nunca mente.

 

Pergunte ao seu corpo:

  • O que você sente quando acorda depois de beber?
  • Qual é a sensação real quando a festa termina?
  • Que tipo de silêncio te invade depois do terceiro copo?

 

É a partir dessas respostas que a reconexão pode começar.

 

Três mecanismos de autoengano comuns entre pessoas com uso problemático de álcool

  1. Minimização

“Não é tão grave assim.”

É a negação disfarçada. A pessoa reconhece parcialmente o problema, mas o reduz, o coloca em segundo plano. Isso impede que medidas concretas sejam tomadas.

  1. Comparação seletiva

“Pelo menos eu não sou como fulano.”

É um jogo mental onde se compara com alguém “pior” para evitar a dor de reconhecer que está mal.

  1. Racionalização

“Eu preciso beber para lidar com o estresse.”

A pessoa cria uma lógica emocional para justificar o consumo, mesmo quando já há evidências do prejuízo.

 

E ENTÃO, POR ONDE COMEÇA A VERDADE?

A reconexão com a verdade não é um grito. É um sussurro que se repete até ser escutado. Algumas sugestões práticas para começar esse retorno:

  • Journaling consciente: escreva, todos os dias, o que você sente antes e depois de consumir álcool. Sem julgamento. Só observe.
  • Práticas de silêncio: meditação, contemplação ou caminhadas sem distrações. O silêncio ajuda a separar o que é verdade do que é impulso.
  • Diálogo com o corpo: onde no corpo você sente a vontade de beber? E onde sente o arrependimento depois? O corpo sabe. Sempre.
  • Psicoterapia, psicanálise, consultoria filosófica e grupos de apoio: quando feita com presença, a fala com o outro é espelho da fala consigo.

 

A LUCIDEZ DÓI NO COMEÇO. DEPOIS, ELA LIBERTA.

Desfazer o autoengano alcoólico não é um processo linear. É uma dança: dois passos para frente, um para o lado, às vezes três para trás. Mas cada vez que você escolhe parar, respirar e se escutar, algo dentro se fortalece.

A mente viciada sempre vai tentar justificar o injustificável. Mas a alma, essa parte mais profunda e indomável, está sempre sussurrando: “não é isso que você quer.”

Talvez a pergunta não seja mais porque você ainda bebe.

Mas sim: o que você está pronto para deixar de justificar?

 


Rafa Pessato

Especialista em Autoconhecimento e Comportamento

rafapessato.eu