Há quem imagine o autocuidado como um luxo. Banhos demorados, velas aromáticas, viagens caras. Mas, para quem já conheceu a boca amarga da dependência, o autocuidado é sobrevivência. É o chão mínimo onde os pés podem tocar quando tudo em volta parece se desfazer.
Você, que conhece a fissura, sabe que o corpo não é apenas corpo: é território. O álcool, a droga, o excesso de comida, de compras, de trabalho, ocuparam esse território como invasores noturnos. Tomaram sua pele, seus ossos, seus pensamentos. De repente, você já não sabia se era você quem bebia ou se era a bebida que te bebia.
E então, um dia, o corpo gritou. Não aguentou mais. O estômago revirou, o coração disparou, o fígado gemeu, a mente rodou. O corpo te puxou de volta para si mesmo. Como quem diz: “Ei, ainda sou teu. Ainda posso ser tua casa, se você me cuidar.”
É aqui que começa o autocuidado.
Não como moda, mas como pacto secreto de ressurreição.
O PESO INVISÍVEL DA DEPENDÊNCIA
A dependência é como uma névoa que cobre tudo: a alegria, o riso, os sonhos, a coragem. É uma prisão sem grades visíveis. O alcoolista pode estar no meio de uma festa, cercado de gente, e ainda assim sentir o frio de uma cela.
Os gatilhos emocionais aparecem como fantasmas: a ansiedade que pede um copo, a solidão que pede companhia líquida, a alegria que pede celebração com espuma. A dependência não tem lógica — é astuta, sempre encontra justificativas. E o mais cruel é a recaída: aquele mergulho repentino depois de dias, semanas ou meses de sobriedade. O corpo se lembra do gosto, o cérebro pede dopamina, a alma se encolhe de vergonha.
Mas a verdade é que não é falta de força de vontade. Força de vontade não sustenta ninguém por muito tempo. Ela cansa. O que sustenta é método, é rotina, é cuidado prático e constante. São gestos pequenos, diários, que se transformam em muralhas invisíveis contra a recaída.
PEQUENAS ROTINAS: A RESISTÊNCIA SILENCIOSA
O autocuidado verdadeiro não é espetáculo. É resistência.
É o copo de água no lugar da cerveja.
É a cama arrumada de manhã, como quem diz: “eu existo”.
É a caminhada curta no quarteirão, mesmo quando a mente pede sofá.
É escrever uma linha num caderno, só para se lembrar que pensamentos também podem sair pela caneta.
É cozinhar algo simples, mesmo quando a fome grita por fast food.
É desligar o celular meia hora antes de dormir e respirar fundo.
É ouvir uma música que te conecta ao silêncio.
É olhar-se no espelho sem medo do reflexo.
Esses gestos parecem mínimos, mas são eles que constroem uma fortaleza invisível. Enquanto a compulsão grita, o autocuidado sussurra. E esse sussurro é mais poderoso do que parece, porque te devolve à autenticidade — ao ser que você era antes da dependência tomar conta.
A autenticidade não se conquista em grandes feitos, mas em pequenos acordos consigo. Cada rotina de cuidado é uma forma de dizer: “eu não desisti de mim.”
A SOBRIEDADE COMO ESTÉTICA DA PRESENÇA
Ser sóbrio não é apenas não beber. É estar presente. É ter coragem de sentir. É abrir-se para o desconforto e também para a beleza. É permitir que a vida doa e cure sem anestesia.
E aqui mora a beleza do autocuidado: ele é a arte de se manter inteiro diante do caos.
É o oposto do produtivismo que exige resultados imediatos.
É o gesto mínimo que abre espaço para a vida máxima.
Se antes você se embriagava para esquecer de si, agora pode se embriagar de presença: do gosto da água gelada, da luz da manhã atravessando a janela, da gargalhada inesperada, do cheiro do café, do abraço de um filho, da leitura de uma página, do silêncio que de repente parece música.
Autocuidar-se é tornar-se artista da própria vida.
E artista não se mede pelo tamanho da obra, mas pela intensidade do traço.
UM PACTO COM A AUTENTICIDADE
A dependência talvez sempre sussurre no fundo, mas você pode aprender a responder com gestos de cuidado. Não como guerra, mas como dança. Não como obrigação, mas como escolha.
Autocuidar-se é lembrar, todos os dias: você é casa, não prisão. Você é fonte, não deserto. Você é raiz, não sombra.
E a sobriedade, longe de ser privação, é um retorno radical ao que sempre foi seu: a possibilidade de ser inteiro, autêntico, vivo.
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento













