O alcoolismo costuma ser narrado como falta de força de vontade. Essa leitura é superficial. O que está em jogo não é ausência de caráter, mas uma relação complexa entre sofrimento psíquico, organização neurobiológica e busca de sentido. Falar de liberdade nesse contexto exige precisão: não se trata de uma liberdade “livre de”, como se fosse possível eliminar toda dor, mas de uma liberdade “apesar de” — isto é, a capacidade de sustentar o peso da existência sem recorrer à anestesia química. A liberdade, nesse cenário, nasce do enfrentamento do “pesar de”: pesar da perda, da culpa, da frustração, do medo, da solidão. É sobre isso que trata este artigo.
O PARADOXO DA LIBERDADE NO ALCOOLISMO
O dependente químico frequentemente descreve o primeiro contato com o álcool como experiência de liberdade: liberdade da timidez, da ansiedade, da sensação de inadequação. “Eu finalmente conseguia ser eu mesmo”, dizem muitos. No entanto, há aqui um paradoxo. Se é preciso beber para ser “eu mesmo”, então esse “eu” já estava capturado por algo que o impedia de existir.
A liberdade inicial proporcionada pelo álcool é uma liberdade de superfície. Ela reduz inibições ao agir sobre o sistema nervoso central, produzindo sensação de relaxamento e recompensa. O problema é que o cérebro aprende rapidamente. A repetição do estímulo cria tolerância: é preciso beber mais para obter o mesmo efeito. O que era liberdade vira necessidade. O que era escolha vira compulsão.
A psicanálise ajuda a compreender esse movimento. O álcool pode funcionar como um objeto substituto, um regulador externo das emoções. Em vez de elaborar conflitos internos, o sujeito recorre à substância para amortecer angústias. O que parecia autonomia revela-se dependência.
O “PESAR DE” QUE SE TENTA EVITAR
A vida adulta implica perdas. Perde-se a ilusão de controle absoluto, perde-se a ideia de perfeição, perde-se a fantasia de reconhecimento permanente. Viver é confrontar-se com limites: morte, solidão, responsabilidade. Esse confronto produz angústia — não uma angústia patológica, mas constitutiva da condição humana.
O alcoolista, muitas vezes, não aprendeu a sustentar essa angústia. Em vez de atravessar o desconforto, busca suprimi-lo. O álcool oferece um atalho: silencia temporariamente a voz interna que cobra, critica, lembra, acusa. O “pesar de” — pesar da história pessoal, de traumas, de frustrações — fica abafado.
No entanto, o que é abafado não desaparece. Retorna sob outras formas: irritabilidade, depressão, impulsividade, conflitos familiares. A tentativa de fugir do sofrimento cria um sofrimento maior.
Há um trecho de canção popular que diz: “Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar”. O alcoolista, por vezes, estabelece com a bebida um vínculo semelhante ao amor romântico idealizado: fidelidade absoluta, promessa de consolo eterno. Mas a substância não ama de volta. Ela cobra.
A ILUSÃO DO CONTROLE
Uma das características do Transtorno por Uso de Álcool (TUA) é a perda de controle sobre a quantidade consumida e sobre o momento de parar. A OMS e outras instituições internacionais, como o Instituto Nacional sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo dos Estados Unidos (NIAAA), descrevem critérios diagnósticos que incluem desejo intenso, dificuldade de interromper o uso, tolerância e sintomas de abstinência.
Mesmo diante de consequências negativas — perda de emprego, conflitos conjugais, problemas de saúde — o consumo persiste. Surge então a pergunta moral: “Por que ele não para?”. Essa pergunta carrega julgamento e desconhecimento. A dependência altera circuitos cerebrais ligados à recompensa, à memória e ao controle inibitório. Não é apenas uma questão de decisão racional; é um processo neuroadaptativo.
Reconhecer isso não significa retirar a responsabilidade do sujeito, mas compreender que a liberdade precisa ser reconstruída. Ela não está dada.
LIBERDADE COMO RESPONSABILIDADE EXISTENCIAL
A filosofia existencial propõe que liberdade e responsabilidade caminham juntas. Somos responsáveis por nossas escolhas, inclusive quando escolhemos não escolher. No alcoolismo, há momentos em que a escolha parece reduzida. Ainda assim, existe um espaço mínimo de decisão: buscar ajuda, admitir a dificuldade, aceitar tratamento.
Liberdade, nesse contexto, não é ausência de desejo de beber. É a capacidade de agir apesar do desejo. É dizer “não” mesmo sentindo vontade. É suportar o “pesar de” a fissura, o mal-estar, a ansiedade.
Essa concepção é dura. Ela exige maturidade emocional e suporte social. Grupos de mútua ajuda, psicoterapia, acompanhamento médico são instrumentos concretos de ampliação da liberdade. Não se trata de heroísmo solitário, mas de construção coletiva.
O CORPO QUE APRENDEU A BEBER
O organismo de quem desenvolveu dependência adapta-se à presença constante do álcool. Ao interromper o consumo, podem surgir sintomas de abstinência: tremores, sudorese, ansiedade intensa, alterações do sono. Em casos graves, pode ocorrer delirium tremens, condição potencialmente fatal. Por isso, a interrupção do consumo deve, muitas vezes, ser acompanhada por equipe de saúde.
A ciência mostra que o cérebro possui plasticidade. Com tempo e abstinência sustentada, há reorganização dos circuitos neuronais. O humor tende a estabilizar, o sono melhora, a capacidade de concentração retorna. Entretanto, esse processo não é imediato. Ele exige paciência.
Aqui reside outra dimensão do “apesar de”: manter-se sóbrio apesar do desconforto inicial, apesar da sensação de vazio, apesar da memória afetiva associada ao álcool.
O VAZIO E A BUSCA DE SENTIDO
Muitos alcoolistas relatam uma sensação de vazio quando param de beber. A bebida ocupava tempo, estruturava encontros sociais, marcava rituais diários. Sem ela, sobra silêncio.
Esse vazio pode ser interpretado como ameaça ou como oportunidade. Do ponto de vista existencial, é no vazio que se pode construir sentido. A sobriedade convida à pergunta: “Quem sou eu sem o álcool?”.
A resposta não é imediata. Ela se constrói no cotidiano: no cuidado com o corpo, no restabelecimento de vínculos, na retomada de projetos. Pequenos gestos — caminhar, cozinhar, conversar — tornam-se exercícios de presença.
PSICANÁLISE E A FUNÇÃO DO SINTOMA
Na psicanálise, o sintoma não é apenas algo a ser eliminado; ele cumpre uma função. O álcool, enquanto sintoma, pode ter servido para manter certa estabilidade psíquica, ainda que precária. Retirá-lo abruptamente sem oferecer alternativas pode intensificar a angústia.
Por isso, o tratamento não se resume à abstinência. É necessário compreender o que o álcool representava na economia psíquica do sujeito. Era fuga de traumas? Era tentativa de integração social? Era resposta a uma autoimagem depreciativa?
Ao elaborar essas questões, a pessoa começa a deslocar a função reguladora da substância para recursos internos e relações mais saudáveis.
SUPORTAR O “PESAR DE” COMO ATO DE CORAGEM
Há uma poesia de Fernando Pessoa que diz: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. No contexto do alcoolismo, suportar o “pesar de” é ampliar a alma — não no sentido religioso, mas no sentido de expandir a capacidade de sentir sem colapsar.
Sentir tristeza não é sinal de fracasso. Sentir medo não é prova de fraqueza. A sobriedade implica aceitar a condição humana em sua complexidade. O álcool prometia eliminar a dor; a vida ensina que a dor faz parte.
Coragem, aqui, não é ausência de medo, mas ação apesar do medo.
ESTRATÉGIAS CONCRETAS PARA CONSTRUIR LIBERDADE
A reconstrução da liberdade passa por medidas práticas, que podem ser:
- Acompanhamento clínico – avaliação adequada do grau de dependência e tratamento individualizado.
- Participação em grupos de apoio – compartilhar experiências reduz o isolamento.
- Organização da rotina – horários regulares de sono e alimentação estabilizam o humor.
- Atividade física – comprovadamente auxilia na regulação emocional.
- Construção de novos significados – investir em atividades que tragam propósito.
Essas estratégias não eliminam o “pesar de”, mas tornam-no suportável.
ALCOOLISMO E SOCIEDADE
É preciso reconhecer que vivemos em uma cultura que incentiva o consumo de álcool como símbolo de celebração e pertencimento. A publicidade associa bebida a sucesso, juventude e prazer. Essa narrativa dificulta o reconhecimento do limite.
Políticas públicas eficazes — regulação da propaganda, restrição de acesso a menores, campanhas educativas — são fundamentais. A responsabilidade é compartilhada entre indivíduo, família, comunidade e Estado.
QUANDO A LIBERDADE É UM PROCESSO
Liberdade não é evento. É processo contínuo. Haverá dias difíceis, lembranças que retornam, situações que despertam vontade de beber. A diferença está na resposta.
O alcoolista em recuperação aprende que pode atravessar esses momentos sem recorrer à substância. Aprende que o desejo é transitório. Aprende que o “apesar de” é mais forte que o impulso imediato.
Essa aprendizagem transforma a identidade. De alguém dominado pela compulsão para alguém capaz de escolher, ainda que com esforço.
A SOBRIEDADE COMO ATO DE DIGNIDADE
Alcoolismo não é falta de caráter. É uma condição complexa que envolve biologia, psicologia e contexto social. A liberdade, nesse cenário, não é eliminar a dor, mas suportá-la sem autodestruição. É aceitar o “pesar de” viver e, ainda assim, afirmar a vida.
A sobriedade não promete ausência de sofrimento. Promete lucidez. E na lucidez há dignidade.
Ser livre, para quem enfrentou a dependência, é acordar e saber que, apesar das dificuldades, a escolha do dia é não beber. É reconhecer que o peso existe, mas que não precisa ser carregado sozinho.
Liberdade é “apesar de”. E, ao sustentar o “pesar de”, descobre-se que a vida, mesmo imperfeita, pode ser habitada com consciência.
Rafa Pessato
Embriague de si












