Uma travessia entre o abismo e o voo
Há uma manhã silenciosa que chega, mesmo quando o corpo carrega a ressaca da noite, mesmo quando o pensamento gira em círculos e o coração se debate entre querer sentir tudo e temer sentir demais. A sobriedade, muitas vezes, é evocada como um campo árido, cinzento, onde a intensidade da vida seria diluída, como se viver sem excessos fosse condenar-se à monotonia. Mas e se a sobriedade fosse uma dança delicada, um equilíbrio entre o peso do desejo e a leveza do ser?
Viver com intensidade sem excesso é uma arte rara: não é o sufocamento do impulso, mas a lapidação do fogo interno. A dependência — seja do álcool, de outras substâncias, dos comportamentos que anestesiam — é uma espécie de vertigem: o salto para o abismo em busca do sublime. Mas há outro caminho, onde o voo e o chão coexistem.
O ESPELHO DAS COMPULSÕES: IMAGENS QUE NOS HABITAM
Imagine um quarto escuro, onde memórias e desejos são sombras dançando nas paredes. Sentar-se diante de si é ver as próprias fissuras, as rachaduras onde a luz luta para entrar. A dependência é muitas vezes o resultado de um grito não ouvido, de um vazio que lateja, da necessidade de preencher uma ausência com qualquer coisa que traga alívio rápido.
E há um momento entre o impulso e o gesto. O dependente conhece esse intervalo: é nele que mora a promessa de fuga, o convite doce do excesso. Mas o excesso, ao contrário do que promete, não é expansão. É contração. É uma prisão emoldurada pelo frenesi.
A sobriedade, então, não é o contrário da intensidade. É a possibilidade de sentir com profundidade sem que o sentir destrua. É como olhar para uma tempestade pela janela, permitindo-se ser tocado pelo trovão sem ser arrastado pelo vendaval.
GATILHOS EMOCIONAIS: OS INVISÍVEIS ARQUITETOS DA RECAÍDA
Há quem imagine a recaída como um tropeço, um deslize simples. Mas, para quem conhece o território da dependência, sabe que ela é desenhada por mãos invisíveis: sentimentos não digeridos, lembranças adormecidas, encontros e desencontros que se encadeiam como peças de dominó.
Os gatilhos emocionais são como notas dissonantes em uma música familiar: uma palavra, um cheiro, uma sensação, um silêncio. Reconhecê-los é como aprender a ler as entrelinhas do próprio corpo. Viktor Frankl escreveu que o ser humano é capaz de encontrar sentido até no sofrimento; os gatilhos, então, não são vilões, mas mensageiros. Eles apontam para aquilo que nos falta, para o que precisa ser olhado com honestidade.
Que imagem poética traduziria um gatilho? Uma pedra jogada em um lago — suas ondas se espalham, levando a memória adiante. Identificar o gatilho é perceber o movimento da água antes que ele se dissipe. É pausar, respirar, perguntar: “O que está tentando me dizer este desejo?”
AUTENTICIDADE: O REENCONTRO CONSIGO E O RENASCIMENTO POSSÍVEL
Ser autêntico é despir-se dos trajes que nos foram dados pelo medo, pela sociedade, pelo passado. É andar, nu de expectativas, pelas trilhas da própria história. A dependência é, muitas vezes, um esconderijo, uma máscara que protege da dor de ser quem se é. Winnicott sussurra que a verdadeira liberdade está em encontrar o self genuíno, aquele que não precisa de adereços para existir.
A sobriedade é a coragem de ser autêntico, mesmo quando a autenticidade dói. É atravessar o deserto sem garantias, sabendo que, do outro lado, há oásis possíveis. É a aceitação radical da própria vulnerabilidade, o abraço das imperfeições como parte do caminho.
A TRAVESSIA ENTRE INTENSIDADE E EXCESSO: O FIO TÊNUE DA LEVEZA
Nietzsche falava do eterno retorno — a ideia de viver cada instante como se fosse eterno. O dependente conhece o paradoxo: vive intensamente, mas de forma repetida, girando em um ciclo que apaga o espanto do viver. A leveza, porém, não é ausência de intensidade, mas a capacidade de se espantar sem se perder.
Viver com leveza é aprender a nadar no mar revolto das emoções, sem se afogar nelas. É transformar o desejo de fuga em desejo de presença. Kierkegaard, o pensador da angústia, diria que a vida autêntica é aquela que assume o risco de existir, sem garantias, sem muletas. Sobriedade é, também, assumir o risco de sentir — e sobreviver ao sentir.
Kafka, sempre às voltas com labirintos, oferece a imagem do indivíduo diante de portas infinitas. Muitas delas são apenas miragens. A sobriedade é escolher atravessar a porta que leva ao desconhecido de si, sem anestesia, sem ilusão.
PRÁTICAS POÉTICAS PARA UMA SOBRIEDADE INTENSA
Não há manual, nem fórmula. Mas há gestos, ações intencionais. Há rituais discretos que podem abrir clareiras no cotidiano. Caminhar ao amanhecer, respirar antes de responder, escrever cartas para si, ouvir o ritmo do próprio coração. Cultivar pequenas alegrias, permitir o silêncio, celebrar cada dia vivido sem excesso como uma vitória silenciosa.
Sobriedade com leveza é fazer da vida uma obra aberta. É transformar a urgência por intensidade em um cultivo lento e paciente. É fazer do tempo um aliado, não um inimigo. É dançar com o desejo sem deixar que ele conduza todos os passos.
ESPERANÇA COMO HORIZONTE
A dependência é uma travessia difícil, marcada por recaídas, por noites insone, por perguntas sem resposta. Mas há esperança. Não a esperança ingênua, mas a esperança que nasce da coragem de olhar para a própria sombra e enxergar nela a semente do próprio renascimento.
Sobriedade é um ato de rebeldia contra o esquecimento de si. É fazer da dor matéria-prima para a transformação. Viver com intensidade sem excesso é escolher, a cada dia, a leveza como ética, como destino, como caminho.
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento