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NÃO FOI VOCÊ QUEM FALHOU: foi a promessa da bebida que mentiu

Quando alguém decide parar de beber, uma das vozes mais cruéis que pode ouvir é a do próprio pensamento, sussurrando: “Você falhou. De novo.” A sensação de fracasso é pesada, quase sufocante. Quantas vezes a recaída vem acompanhada dessa culpa implacável? Quantas vezes, ao olhar no espelho, quem luta contra o álcool não vê um derrotado, mas sim um guerreiro cansado? A boa notícia é: você não falhou. A promessa da bebida é que falhou com você.

 

A MENTIRA EMBRIAGANTE

A bebida, desde o primeiro gole, carrega uma promessa. Ela diz: “Eu posso ser a sua fuga, o seu alívio, a sua solução.” A publicidade, a cultura popular, o círculo social, até a sua própria voz interna, dão suporte a essa crença. Mas o que está por trás dessa promessa? Um vazio que a bebida jamais poderá preencher. Como dizia Jean-Paul Sartre, uma das vozes centrais do pensamento existencialista, a “má-fé” é a mentira que contamos a nós mesmos para evitar encarar a liberdade e responsabilidade da escolha. Ao beber, tentamos fugir da angústia da existência, mas esse escape é ilusório.

A dependência do álcool não nasce da bebida em si, mas do que ela simboliza para cada pessoa. Para uns, é o anestésico das dores emocionais; para outros, a válvula de escape da solidão, da ansiedade, ou do tédio existencial. O filósofo Søren Kierkegaard já nos advertia que “a maior angústia é a angústia da liberdade”, ou seja, o peso de ser responsável por nossas próprias decisões e existir em um mundo sem certezas absolutas. A bebida promete alívio desse peso, mas só reforça a prisão.

 

RESSIGNIFICANDO RECAÍDAS: NÃO UM FRACASSO, MAS UM PASSO NO CAMINHO

Cada recaída é muitas vezes vista como uma falha definitiva, um carimbo de incapacidade. Mas e se a gente olhar para a recaída de outra forma? O psiquiatra Carl Jung já dizia que “até a pessoa mais sombria pode ser redimida pela luz da consciência”. Recaídas são, na verdade, manifestações da complexidade da luta interna. Não são o fim, mas um convite para um entendimento mais profundo.

No campo da psicologia, é reconhecido que o processo de abandono do vício é não linear. O transtorno do uso de álcool é uma doença crônica, com ciclos de recaída e remissão, o que significa que o sucesso muitas vezes envolve tropeços, aprendizados e adaptações. O importante não é a ausência de quedas, mas a continuidade da jornada.

Você não está sozinho na sua experiência. Pesquisas mostram que 70% das pessoas que buscam tratamento para alcoolismo apresentam recaídas, mas a maioria continua caminhando em direção à sobriedade duradoura. A recaída não apaga o valor da luta nem a coragem de tentar novamente.

 

A PROMESSA DA BEBIDA: UMA ILUSÃO CONSTRUÍDA

Por que a bebida “prometeu” mais do que podia cumprir? Por que nos enganamos? A resposta está em uma complexa teia de fatores sociais, psicológicos e econômicos.

O marketing do álcool é poderoso. Ele vende uma imagem de felicidade, sucesso, diversão e até de liberdade. Quantos comerciais mostram amigos sorrindo, festas vibrantes, celebrações, e associam tudo isso ao ato de beber? A bebida é vendida como uma chave para a felicidade instantânea, uma forma de pertencer, de ser aceito.

Mas como aponta o psicólogo Gabor Maté, em seu livro “Quando o Corpo Diz Não”, o vício é “uma tentativa de resolver um problema profundo de dor emocional e desconexão”. A bebida não cria essa dor, mas oferece uma ilusão temporária de solução.

Além disso, o alcoolismo é muitas vezes alimentado por dependência emocional, um desejo de escapar do sentimento de vazio, rejeição ou abandono. A bebida entra no lugar do que falta — afeto, sentido, reconhecimento — e cria uma armadilha difícil de romper.

 

LIBERTANDO-SE DA CULPA: UM OLHAR CRÍTICO E COMPASSIVO

É fundamental entender que a culpa não é uma ferramenta eficaz para a mudança. Pelo contrário, ela paralisa, diminui a autoestima e fortalece o ciclo do vício. Em vez de se culpar, é necessário cultivar um olhar compassivo sobre si mesmo.

Como propunha Simone de Beauvoir, “não nascemos prontos, nós nos tornamos aquilo que escolhemos ser.” Isso quer dizer que cada momento é uma oportunidade de recomeço, de fazer diferente, de assumir o protagonismo da própria vida.

Reconhecer que a bebida falhou com você — e não o contrário — é o primeiro passo para se libertar da má-fé. Ao desmontar a promessa ilusória do álcool, abre-se espaço para a autenticidade, para a escolha consciente e para o reencontro com a própria liberdade.

 

O CONVITE À LIBERDADE: ESCOLHER A VIDA AUTÊNTICA

A escolha de parar de beber é um ato radical de liberdade e coragem. Como Friedrich Nietzsche ensinou, “tornar-se quem se é” é um processo que exige enfrentar o abismo do desconhecido, aceitar a dor e a incerteza, e se comprometer com a própria verdade.

A sobriedade não é um estado de ausência, mas de presença. É a oportunidade de sentir plenamente a vida — com suas dores, alegrias, contradições e beleza — sem a cortina anestésica da bebida.

É olhar para dentro, acolher as emoções, construir sentido e sentido com as próprias mãos. Como Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto e fundador da logoterapia, afirmou: “Mesmo nas circunstâncias mais difíceis, a vida pode ter sentido, e esse sentido pode ser encontrado na escolha da atitude diante do sofrimento.”

 

CAMINHOS QUE SE ABREM

Se você está lendo isso, já deu o primeiro passo — o de questionar a narrativa que a bebida contou para você. Quebrar essa ilusão não é fácil, mas é libertador.

Busque apoio: grupos, terapeutas especializados em dependência química, amigos e familiares que acolhem sem julgamentos são aliados preciosos.

Invista em autoconhecimento: a meditação, o diário emocional, a terapia, o contato com a natureza, a arte, a escrita — todas essas práticas ajudam a preencher o vazio que a bebida tentou ocupar, com experiências reais e significativas.

Lembre-se: a vida que você quer está do outro lado do medo, da culpa e da ilusão. Você é mais do que suas recaídas, mais do que seus erros, mais do que a promessa falida de uma bebida.

A verdadeira liberdade está em assumir seu lugar na existência, sem máscaras, com toda a autenticidade que lhe pertence.

 


Rafa Pessato

Especialista em Autoconhecimento e Comportamento

rafapessato.eu