“Eu bebo porque quero.”
Essa é uma das frases mais comuns que se escuta por aí quando o assunto é bebida alcoólica. À primeira vista, parece fazer sentido: a pessoa está lá, tranquila, decide tomar uma cerveja, um vinho, um destilado. Ninguém obrigou, ninguém forçou. A decisão parece ser dela. Livre, consciente, pessoal.
Mas será mesmo?
Esse artigo é um convite — talvez um pouco incômodo, mas necessário — a questionar essa tal liberdade que tanto defendemos. Porque, às vezes, o que a gente chama de “escolha” é, na real, uma resposta automática, um reflexo condicionado, um script invisível que já estava rodando antes mesmo da gente pensar no primeiro gole.
É como se a gente fosse o passageiro de um carro e jurasse que está dirigindo. Mas quem segura o volante?
PRIMEIRA PARADA: O PILOTO AUTOMÁTICO
Vamos começar pelo básico: o nosso cérebro adora economizar energia. Pensar dá trabalho. Escolher conscientemente, então, nem se fala. Por isso, ao longo da vida, ele vai criando atalhos, rotinas, hábitos. O problema é que muitos desses atalhos são moldados em contextos de dor, carência, estresse, traumas, ansiedade.
E adivinha? O álcool vira um botão de alívio instantâneo.
A mente associa: tensão = bebida = relaxamento. Isso acontece repetidas vezes, até que o caminho vira uma avenida asfaltada. Você nem percebe, mas já pegou a curva. Não foi você quem escolheu virar à direita. Foi o costume, a química, a promessa de conforto.
Você só acha que decidiu.
SEGUNDA PARADA: O ALGORITMO EMOCIONAL
Agora vamos um pouco mais fundo. Imagine que existe dentro de você um “algoritmo emocional” — um conjunto de crenças, memórias e programações que opera por trás das suas decisões. Esse algoritmo não é racional. Ele funciona à base de emoções, associações e experiências passadas.
Se, por exemplo, você cresceu vendo adultos beberem para comemorar, para relaxar, para suportar a vida, seu cérebro vai conectar álcool com essas funções. Mesmo que você queira parar, ou ache que “tem o controle”, esse algoritmo pode ser mais rápido e mais persuasivo que sua vontade.
Ele sussurra: “Vai só hoje. Você merece. É só um pouquinho.”
E você vai. Como se fosse sua ideia.
TERCEIRA PARADA: O TEATRO SOCIAL
Vamos sair da cabeça um pouco e olhar em volta. Você já reparou como a sociedade toda gira em torno do álcool? Casamento, velório, festa, happy hour, feriado, domingo, segunda. Tem sempre uma desculpa. Um motivo. Um brinde.
O álcool está tão normalizado que questionar seu uso soa radical. Se você disser que não bebe, já vem o clássico:
“Tá grávida?”
“Tá doente?”
“Virou crente?”
Isso mostra o quê? Que o álcool não é apenas uma substância. É um símbolo. De pertencimento, de alegria, de relaxamento, de status. E a gente, querendo ou não, busca pertencimento. Fazemos parte de grupos, tribos, famílias. E dentro desses sistemas, existe uma coisa chamada lealdade inconsciente.
É como se, para continuar fazendo parte, a gente tivesse que manter o mesmo script. Mesmo que isso custe nossa liberdade.
Você não bebe porque quer. Você bebe porque é assim que se encaixa no mundo que você conhece.
QUARTA PARADA: O FANTASMA DA FUGA
Agora, me diz com sinceridade: o que você está tentando anestesiar?
Sim, porque por trás de cada gole, muitas vezes, existe algo que a gente não quer sentir. Solidão, insegurança, medo, raiva, culpa. O álcool vira um escudo invisível. Uma armadura líquida.
Mas aqui está o truque: quando a gente bebe para fugir, a gente foge de nós mesmos. E como fugir de si sem perder o rumo?
O mais louco é que, com o tempo, a gente começa a achar que sem essa armadura a vida é insuportável. Como se o prazer, a coragem, a leveza só existissem com álcool.
Mas isso é mentira. É só uma mentira bem embalada e socialmente aceita.
QUINTA PARADA: A ILUSÃO DO CONTROLE
“Eu paro quando quiser.”
Essa talvez seja a maior mentira que o álcool conta. Ele se disfarça de aliado, de amigo, de parceiro. Mas, aos poucos, assume o controle do show. Você ainda acha que está no comando, mas, no fundo, já virou coadjuvante da própria vida.
A dependência — mesmo que “leve” — não começa quando você perde tudo. Ela começa quando você começa a negociar com a sua própria verdade. Quando você passa a adiar, justificar, fingir que está tudo bem.
Quando sua vontade começa a depender de uma taça.
SEXTA PARADA: A SOMBRA DA ANCESTRALIDADE
Vamos falar de algo que pouca gente considera: a herança emocional.
Muitas vezes, o impulso de beber está ligado a dores que nem são nossas. São dores herdadas. Traumas transgeracionais. Padrões familiares repetidos como um disco arranhado.
Talvez seu avô já bebia para esquecer. Seu pai bebia para não explodir. Sua mãe escondia a garrafa atrás da porta. E você, sem perceber, repete o ciclo. Carrega a dor dos que vieram antes como se fosse sua. E acredita que essa é a única forma de lidar com a vida.
Mas não é.
ÚLTIMA PARADA: O DESPERTAR
Ok. Se tudo isso é verdade, onde está a tal liberdade?
Ela começa quando você questiona. Quando você se olha no espelho e, em vez de dizer “eu bebo porque quero”, você pergunta: “Quem está decidindo por mim?”
Talvez seja o medo. Talvez seja a sociedade. Talvez seja a criança ferida. Talvez seja a dor que você nunca nomeou.
O despertar começa no desconforto. No momento em que você percebe que liberdade não é fazer o que quiser, mas saber por que faz.
E, às vezes, a liberdade real não é poder beber. É não precisar mais disso para se sentir inteiro.
EPÍLOGO: UM GOLE DE VERDADE
Esse texto não é sobre condenar quem bebe. Nem sobre colocar rótulo em ninguém. É sobre acender uma luz num cômodo que costuma ficar no escuro.
É sobre você perceber que talvez nunca tenha escolhido de fato. Que talvez esteja repetindo algo sem perceber. Que talvez o álcool esteja te privando da sua própria essência.
E que você pode, sim, recuperar essa autonomia.
Mas, para isso, vai ter que parar de romantizar o que te afasta de você.
Vai ter que sair do piloto automático, recalibrar o algoritmo emocional, desafiar o teatro social, encarar a sombra da fuga, chamar o controle de volta, honrar seus ancestrais e se reconectar com o que realmente importa.
Ufa! Pode parecer muita coisa. E é.
Mas vale cada passo. Porque, no fim, a liberdade verdadeira não grita. Ela sussurra. E só quem silencia o barulho do álcool consegue ouvi-la.