Quando parar de beber deixa de ser perda e vira alívio psíquico
O alcoolismo não aprisiona apenas pelo álcool.
Ele aprisiona pela necessidade constante de fingir.
Fingir controle.
Fingir normalidade.
Fingir que está tudo bem.
Fingir que é só uma fase, só um hábito, só uma escolha.
Para muitas pessoas, beber não é apenas consumir uma substância.
É sustentar uma identidade socialmente aceitável — mesmo quando, por dentro, tudo já está ruindo.
Parar de beber, nesse contexto, não é só interromper o consumo.
É acessar algo muito mais radical: a liberdade de não precisar fingir.
O FARDO INVISÍVEL DO FINGIMENTO
Do ponto de vista psicológico, manter uma discrepância constante entre o que se sente e o que se mostra produz alto custo psíquico.
A literatura em saúde mental chama isso de dissonância interna crônica, associada a níveis mais elevados de estresse, ansiedade e depressão.
No alcoolismo, essa dissonância se manifesta de forma silenciosa:
- beber e dizer que está tudo sob controle
- prometer que vai diminuir
- negociar limites que já foram ultrapassados
- justificar recaídas
- esconder quantidades
- administrar versões de si mesmo
Estudos do Instituto Nacional sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo (NIAAA) mostram que a negação e a minimização fazem parte do quadro da dependência, não como traço moral, mas como mecanismo psíquico de proteção contra o colapso da autoimagem.
Fingir, nesse sentido, não é mentira consciente.
É sobrevivência psíquica.
O QUE A CIÊNCIA CHAMA DE DEPENDÊNCIA — E O SUJEITO VIVE COMO PRISÃO
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define o alcoolismo (dependência de álcool) como um conjunto de critérios comportamentais, cognitivos e fisiológicos, entre eles:
- perda de controle
- prioridade crescente ao álcool
- tolerância
- sintomas de abstinência
- persistência no uso apesar das consequências
Mas essa definição clínica não dá conta de algo central:
a vivência subjetiva de aprisionamento.
Do ponto de vista existencial, o alcoolismo se instala quando a pessoa perde a liberdade real de escolher — ainda que mantenha a ilusão de escolha.
Jean-Paul Sartre já apontava que a má-fé surge quando o sujeito se engana para evitar a angústia da responsabilidade. No alcoolismo, essa má-fé não é filosófica — é cotidiana, repetida, cansativa.
“A angústia é a apreensão do nada, isto é, da liberdade que se revela como responsável por si mesma.” (Jean-Paul Sartre, O Ser e o Nada)
O ALÍVIO INESPERADO DE PARAR DE FINGIR
Muitos esperam que parar de beber seja apenas difícil.
Mas algo frequentemente relatado — e pouco falado — é o alívio psíquico inicial.
Não porque tudo melhora.
Mas porque algo para de pesar.
Relatos clínicos e estudos qualitativos mostram que, nas primeiras semanas sem álcool, mesmo com cansaço e instabilidade emocional, há diminuição de:
- ansiedade social
- hipervigilância
- medo de ser descoberto
- esforço de controle
Um estudo publicado no Journal of Substance Abuse Treatment descreve que a redução da carga cognitiva associada à ocultação do uso contribui para sensação subjetiva de alívio, mesmo antes de benefícios físicos plenos.
Não beber pode ser difícil.
Mas fingir o tempo todo é exaustivo.
PSICANÁLISE: O ÁLCOOL COMO CENA E O SUJEITO COMO ATOR
Do ponto de vista psicanalítico, o alcoolismo pode ser compreendido como um sintoma — não no sentido de algo superficial, mas como uma solução psíquica precária.
O álcool entra como:
- mediador afetivo
- regulador emocional
- organizador da cena social
O sujeito bebe, mas também encena.
Winnicott falava do falso self como adaptação excessiva ao ambiente. No alcoolismo, o fingimento pode funcionar como um falso self químico: uma versão de si mais aceitável, mais tolerável, mais performável.
Parar de beber desmonta esse palco.
E isso assusta.
Mas também liberta.
A SOBRIEDADE COMO VERDADE POSSÍVEL (NÃO COMO IDEAL MORAL)
É importante dizer: sobriedade não é pureza.
Não é superioridade.
Não é virtude.
Do ponto de vista clínico e científico, sobriedade é redução de carga psíquica.
Sem álcool:
- o sono se torna mais previsível
- o sistema nervoso reduz hiperativação
- a memória melhora
- a regulação emocional se torna possível
Estudos longitudinais citados pela OMS e pelo NIAAA mostram melhora progressiva de saúde mental após a interrupção do uso, mesmo em pessoas que não se identificam com modelos abstêmios moralizados.
Mas o ganho mais profundo não aparece nos exames.
Aparece na vida cotidiana:
não precisar fingir que está bem quando não está.
não precisar justificar o próprio comportamento.
não precisar sustentar versões contraditórias de si.
A LIBERDADE EXISTENCIAL DE SER COERENTE
Viktor Frankl dizia que a liberdade humana começa na possibilidade de responder de forma diferente às circunstâncias.
No alcoolismo, a resposta se torna automática.
Na sobriedade, a resposta volta a ser escolha — ainda que difícil.
A liberdade de não precisar fingir não é confortável.
Ela exige contato com limites, falhas e verdades.
Mas ela devolve algo essencial:
coerência interna.
E coerência cansa menos do que mentira.
NÃO FINGIR NÃO É SE EXPOR A TUDO — É PARAR DE SE TRAIR
Importante diferenciar:
não fingir não significa contar tudo, para todos, o tempo todo.
Significa parar de se abandonar para manter uma imagem.
Do ponto de vista psicológico, isso reduz estresse crônico, diminui ativação do eixo cortisol e melhora autorregulação emocional — efeitos documentados em estudos sobre autenticidade e saúde mental publicados em periódicos como Psychological Science.
Ser verdadeiro consigo não resolve tudo.
Mas torna a vida habitável.
EM VEZ DE CONCLUIR, UMA CONSTATAÇÃO
Muitos não param de beber porque não suportam a ideia de perder algo.
Mas, para quem vive o alcoolismo, o que se perde primeiro é a liberdade de ser quem se é.
Parar de beber não é ganhar uma nova identidade.
É parar de sustentar uma falsa.
E isso, para muitos, é o primeiro alívio real em anos.
Rafa Pessato
Embriague-se de si













