Nomear o corpo, sustentar a mente e deslocar o foco do “não beber” para o “por que viver”.
Os primeiros dias sem álcool costumam frustrar expectativas.
Muita gente imagina que o maior desafio será a vontade intensa de beber, a fissura explícita, o desejo incontrolável. Mas, na prática clínica, nos relatos de pessoas em processo de interrupção do uso e na literatura científica, o que mais aparece no início não é apenas a vontade — é o cansaço.
Um cansaço persistente, difuso, difícil de explicar.
Não é exaustão comum. Não passa com uma noite de sono. Não melhora apenas com descanso. E, justamente por não ser reconhecido socialmente como parte do processo, ele se torna um dos principais fatores de desistência precoce.
Do ponto de vista científico, esse cansaço tem nome, causas e função.
Do ponto de vista psicanalítico e existencial, ele tem ainda outro estatuto: é o sinal de que o corpo e a subjetividade estão saindo de um regime de funcionamento artificial para um estado de reorganização real.
O QUE A CIÊNCIA CHAMA DE ADAPTAÇÃO NEUROBIOLÓGICA AO RETIRAR O ÁLCOOL
O álcool é uma substância psicoativa depressora do sistema nervoso central. Seu uso regular provoca alterações significativas nos principais sistemas de regulação do cérebro, especialmente nos sistemas GABAérgico, glutamatérgico e dopaminérgico.
Segundo o Instituto Nacional sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo dos Estados Unidos (NIAAA), o consumo frequente de álcool leva o cérebro a compensar a ação sedativa da substância reduzindo a sensibilidade aos neurotransmissores inibitórios (como o GABA) e aumentando a atividade excitatória (glutamato). Quando o álcool é interrompido, esse sistema permanece temporariamente desregulado, gerando sintomas como fadiga, lentidão cognitiva, alterações do sono, dificuldade de concentração e sensação geral de exaustão.
Ou seja:
o cansaço inicial não é psicológico no sentido simplista.
Ele é neurofisiológico, previsível e documentado.
Estudos publicados em revistas como Alcohol Research: Current Reviews e The Journal of Clinical Psychiatry mostram que o cérebro pode levar semanas — às vezes meses — para restabelecer níveis mais estáveis de neurotransmissores após a interrupção do uso regular de álcool.
ONDE ESSE CANSAÇO TOCA O CORPO — E POR QUE ISSO ACONTECE
Esse cansaço não se manifesta de forma idêntica em todas as pessoas, mas há padrões recorrentes descritos tanto na literatura médica quanto em estudos clínicos observacionais.
Sensação de peso corporal e fadiga muscular
A fadiga física está relacionada à alteração do metabolismo energético, à qualidade do sono e ao aumento transitório de processos inflamatórios sistêmicos, frequentemente associados ao uso crônico de álcool. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que o álcool interfere diretamente no metabolismo muscular, na absorção de vitaminas do complexo B e na regulação hormonal — fatores diretamente ligados à sensação de vitalidade física.
Lentidão cognitiva e dificuldade de foco
Pesquisas em neuroimagem indicam que, após a interrupção do álcool, há um período de menor eficiência nos circuitos pré-frontais, responsáveis por atenção, tomada de decisão e planejamento. Essa lentidão não indica dano permanente, mas um processo de recalibração funcional.
Sono não reparador
Estudos clássicos sobre álcool e sono demonstram que, embora o álcool facilite o adormecer, ele fragmenta o sono profundo (sono REM e NREM profundo). Nos primeiros dias sem álcool, o corpo tenta reorganizar os ciclos do sono, o que explica por que muitas pessoas dormem mais e ainda assim acordam cansadas. Esse fenômeno é amplamente descrito pelo National Sleep Foundation e por pesquisas clínicas na área de medicina do sono.
ONDE ESSE CANSAÇO TOCA A MENTE — E POR QUE ELE ASSUSTA TANTO
Se biologicamente o cansaço é esperado, subjetivamente ele é vivido como ameaça.
Isso acontece porque o álcool não regula apenas neurotransmissores — ele regula afetos.
Do ponto de vista psicanalítico, o álcool frequentemente funciona como um regulador emocional externo, um recurso para lidar com excesso de angústia, vazio, ansiedade, tédio ou hipersensibilidade psíquica. Quando ele é retirado, não é apenas o corpo que sente: o sujeito se vê diante de afetos que estavam amortecidos.
Freud já apontava, em O Mal-Estar na Civilização, que os entorpecentes funcionam como uma tentativa de reduzir o sofrimento inerente à condição humana. O problema não é o sofrimento em si, mas a ausência de mediações simbólicas para atravessá-lo.
Assim, o cansaço mental dos primeiros dias sem álcool pode ser compreendido como:
- esforço psíquico de sentir sem anestesia
- aumento da percepção de si
- contato com conflitos antes evitados
Não é colapso.
É retorno da experiência.
POR QUE FOCAR APENAS EM “NÃO BEBER” AUMENTA O CANSAÇO
Do ponto de vista psicológico e comportamental, focar exclusivamente na abstinência mantém o álcool no centro da vida psíquica. Estudos em psicologia da dependência mostram que estratégias baseadas apenas em supressão (“não pensar”, “não fazer”, “não beber”) aumentam a fadiga mental e a ruminação.
A teoria do estresse e enfrentamento, desenvolvida por Richard Lazarus e Susan Folkman, demonstra que estratégias de coping (estratégias que uma pessoa usa para lidar com situações estressantes) mais eficazes são aquelas que deslocam o foco do controle rígido para o significado da experiência.
Em outras palavras:
não é sustentável passar dias inteiros lutando contra algo.
É mais sustentável construir algo.
TRÊS DESLOCAMENTOS FUNDAMENTAIS PARA ATRAVESSAR O CANSAÇO
1. Do desempenho para a autorregulação
A literatura em neurociência afetiva mostra que o sistema nervoso precisa de previsibilidade e segurança para se reorganizar. Reduzir exigências externas, diminuir estímulos e aceitar um ritmo mais lento não é desistir — é favorecer a recuperação.
2. Do controle para o cuidado
Abordagens contemporâneas em saúde mental, como o modelo de redução de danos e as terapias baseadas em compaixão, indicam que o autocuidado diminui recaídas mais do que estratégias punitivas ou excessivamente disciplinadoras.
3. Da identidade antiga para uma identidade em construção
Do ponto de vista existencial, autores como Viktor Frankl já apontavam que o sofrimento se torna suportável quando há sentido. O cansaço inicial faz parte da transição entre um modo de existir conhecido e outro ainda em formação. Essa zona intermediária é instável — e cansativa.
O CANSAÇO COMO SINAL DE REORGANIZAÇÃO, NÃO DE FRACASSO
Somando ciência, psicanálise e experiência clínica, a conclusão é clara: o cansaço dos primeiros dias sem álcool não é um obstáculo ao processo — ele faz parte do processo.
Ele indica:
- adaptação neurobiológica
- reorganização emocional
- deslocamento existencial
Desistir nesse ponto é como abandonar uma fisioterapia porque o músculo dói ao voltar a funcionar.
O FOCO FINAL: NÃO É SOBRE A BEBIDA, É SOBRE A VIDA
Quanto mais cedo a pessoa consegue deslocar a pergunta de “como não beber?” para “por que viver sem álcool?”, menor tende a ser a exaustão subjetiva.
Não porque o cansaço desapareça imediatamente, mas porque ele passa a ter sentido.
E sentido sustenta onde a força falha.
Rafa Pessato
Embriague-se de si













