Há um tipo de prazer que não se aprende em propaganda de cerveja. Ele não aparece em comerciais de verão, nem em mesas de bar. Não vem gelado, não faz barulho, não promete histórias inesquecíveis.
É o prazer de acordar sem ressaca. E, com o tempo, acordar sem vergonha.
Para quem viveu anos bebendo, isso não é detalhe. É uma reorganização da vida por dentro.
Mas “sem vergonha” aqui precisa de tradução.
Porque estamos falando de três coisas diferentes ao mesmo tempo — e todas importantes.
O QUE QUER DIZER ACORDAR “SEM VERGONHA”?
No português, “sem vergonha” é uma expressão curiosa. Ela tanto pode ser ofensa quanto libertação.
“Sem vergonha” pode significar:
– sem culpa
– sem constrangimento
– sem medo
– sem timidez
– sem precisar se esconder
E também, claro, pode significar alguém que perdeu o freio. Mas não é desse “sem vergonha” que estamos falando aqui.
Estamos falando do outro. O raro. O que aparece quando o álcool sai de cena.
PRIMEIRO: SEM VERGONHA COMO “SEM CULPA”
A culpa é um dos afetos mais silenciosos do alcoolismo.
Ela não grita — ela rói.
Na psicanálise, a culpa está ligada ao superego: essa instância interna que cobra, acusa, vigia. Para muitas pessoas, o álcool funciona inicialmente como um anestésico do superego. Ele afrouxa a cobrança, cala a voz crítica, dá um intervalo do “você deveria ser melhor”.
O problema é que esse intervalo cobra juros. No dia seguinte, a culpa volta ampliada:
– “de novo”
– “prometi que não ia”
– “o que eu fiz ontem?”
A ressaca não é só física.
Ela é moral.
Acordar sem beber começa, aos poucos, a produzir algo revolucionário: dias sem culpa acumulada.
Não porque a pessoa virou santa.
Mas porque deixou de se colocar repetidamente em situações que exigem desculpas internas.
Sem álcool, o sujeito para de se trair diariamente. E isso é profundamente reparador.
A CIÊNCIA CONFIRMA: A CULPA TAMBÉM É FISIOLÓGICA
O álcool desregula neurotransmissores ligados à regulação emocional, como serotonina e dopamina, além de aumentar o cortisol, o hormônio do estresse. Esse combo favorece estados de ansiedade, ruminação e autocrítica no dia seguinte.
Estudos mostram que, após algumas semanas sem álcool:
– há redução significativa de sintomas depressivos leves
– diminui a ansiedade basal
– melhora a percepção de autoeficácia
Traduzindo: a pessoa se sente menos errada por existir. Não é autoestima inflada. É menos autodepreciação.
SEGUNDO: SEM VERGONHA COMO “SEM CONSTRANGIMENTO”
Existe uma vergonha específica que acompanha quem bebe demais: a vergonha social.
Ela vem em forma de:
– checar mensagens
– reconstruir a noite
– tentar lembrar o tom da própria voz
– perguntar “eu falei besteira?”
Acordar sem ressaca é acordar sem esse inventário moral da noite anterior. Isso muda o modo como o sujeito habita o mundo.
Na perspectiva existencialista, vergonha e constrangimento estão ligados ao olhar do outro. Sartre dizia que a vergonha nasce quando me vejo sendo visto. No alcoolismo, esse olhar do outro é antecipado, imaginado, temido — mesmo quando não há ninguém olhando.
O sujeito passa a viver se observando de fora, desconfiando de si.
Sem álcool, algo curioso acontece: a relação com o olhar do outro relaxa. Não porque a pessoa “ligue menos”, mas porque tem menos o que justificar.
TERCEIRO: SEM VERGONHA COMO “SEM TIMIDEZ”
Aqui o jogo vira.
Muita gente acredita que o álcool ajuda a “soltar”, a “desinibir”, a “dar coragem”. No início, até parece verdade. O álcool reduz inibições comportamentais ao deprimir o sistema nervoso central.
Mas essa coragem é emprestada.
E cobra devolução.
Com o tempo, o sujeito desaprende a acessar espontaneidade sem substância. Falar, dançar, dizer não, dizer sim — tudo parece exigir um copo.
A sobriedade, no começo, pode parecer o oposto da coragem. Mas isso é fase. Com o tempo, surge outro tipo de ousadia: a de ser quem se é sem anestesia.
Menos performático. Mais verdadeiro. E isso não é timidez. É presença.
DO “SEM CULPA” AO “SEM MEDO DE SER”
O processo costuma ser assim:
- Primeiro, acordar sem culpa
- Depois, viver sem constrangimento
- Por fim, existir sem medo de ser quem se é
Esse terceiro estágio é profundamente existencial.
Kierkegaard falava do desespero de não ser si mesmo. O álcool, muitas vezes, é uma tentativa de fugir desse desespero.
A sobriedade, paradoxalmente, é o caminho de volta. Não para um “eu ideal”, mas para um eu possível.
E A RESSACA? ELA ERA UM SINTOMA, NÃO O PROBLEMA
A ressaca é o aviso luminoso do corpo dizendo: “assim não dá”.
Ela envolve desidratação, inflamação, alteração do sono REM, queda de glicose, desequilíbrio neuroquímico. Mas, simbolicamente, ela representa algo maior: a interrupção da continuidade do sujeito.
O dia seguinte vira um dia amputado. Sem ressaca, os dias voltam a ter começo, meio e fim.
E isso, para a psicanálise, é fundamental: continuidade psíquica sustenta identidade.
O PRAZER SUTIL DA SOBRIEDADE NÃO É EUFORIA. É CHÃO.
Quem espera da sobriedade o mesmo impacto do álcool se frustra. Ela não dá pico. Ela dá base.
É o prazer de:
– acordar inteiro
– lembrar das conversas
– sustentar decisões
– não negociar consigo mesmo o tempo todo
É um prazer sem espetáculo e profundamente estável.
UM HUMOR FINAL (PORQUE A SOBRIEDADE TAMBÉM RI)
Acordar sem ressaca não te transforma numa pessoa iluminada. Mas evita que você acorde fazendo arqueologia emocional.
Acordar sem vergonha não te torna ousado de imediato. Mas te poupa de se esconder.
Com o tempo, talvez você fique mesmo “sem vergonha”. No melhor sentido possível.
Sem culpa desnecessária.
Sem medo exagerado.
Sem timidez aprendida.
Só você.
Inteiro.
Presente.
E isso, convenhamos, é um baita prazer.
Rafa Pessato
Embriague-se de si!













