O alcoolismo é uma das palavras mais carregadas da nossa cultura.
Ela nunca chega sozinha. Vem acompanhada de julgamentos, rótulos, explicações prontas, discursos médicos, religiosos, morais e tentativas desesperadas de enquadramento.
Para uma corrente de pensamento, alcoolismo é doença.
Para outras, é prazer exagerado, egoísmo, fraqueza, falta de vergonha na cara, desvio de caráter, possessão demoníaca.
Na clínica, aparece como sintoma.
Na psiquiatria, como transtorno.
Na saúde pública, como epidemia silenciosa.
Talvez o incômodo esteja justamente aí: o alcoolismo não cabe em uma definição única, porque ele não é apenas um conceito — é uma experiência vivida no corpo, na história e na repetição.
E talvez a pergunta mais importante não seja “o que é alcoolismo?”,
mas sim: o que muda quando alguém reconhece que não consegue controlar o álcool?
O ALCOOLISMO NÃO É UM CONCEITO — É UMA EXPERIÊNCIA
Do ponto de vista da saúde, o alcoolismo é classificado hoje como Transtorno por Uso de Álcool, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Americana de Psiquiatria.
Essa definição descreve um padrão de consumo marcado por perda de controle, compulsão, prioridade dada ao álcool e persistência apesar das consequências negativas.
Esses critérios são fundamentais para diagnóstico, políticas públicas e tratamento.
Mas eles não capturam algo essencial: como é viver o alcoolismo por dentro.
Porque o alcoolismo não começa no laudo.
Ele começa quando o álcool deixa de ser escolha e passa a ser recurso.
Depois, necessidade.
Depois, eixo.
É DOENÇA? SIM. MAS ISSO NÃO ENCERRA A QUESTÃO
Dizer que o alcoolismo é uma doença fez — e ainda faz — enorme diferença.
Retirou o fenômeno do campo exclusivo da moral e o colocou no campo da saúde.
Estudos do Instituto Nacional sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo, ligado ao Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, demonstram alterações neuroquímicas consistentes em pessoas com dependência: mudanças no sistema de recompensa, na dopamina, no GABA, no glutamato e nos circuitos ligados ao controle inibitório e à tomada de decisão.
Há influência genética, adaptação cerebral ao uso repetido e prejuízo real da capacidade de autocontrole.
Do ponto de vista biológico, não há dúvida: o alcoolismo envolve processos cerebrais mensuráveis.
Mas há um ponto delicado: saber que é uma doença não garante mudança de comportamento.
Para algumas pessoas, o diagnóstico alivia a culpa.
Para outras, paralisa.
Para outras ainda, vira argumento para adiar a decisão: “se é doença, não há o que fazer agora”.
A informação é necessária.
Mas nem sempre é suficiente.
PRAZER, ALÍVIO E PRISÃO: O CAMINHO DO ÁLCOOL
Raramente o alcoolismo começa como sofrimento explícito.
Ele começa como algo que funciona.
O álcool relaxa, desinibe, aproxima, silencia a mente, alivia tensões.
A neurociência explica: ele reduz a atividade do sistema nervoso central e gera sensação de recompensa imediata.
O cérebro aprende rápido: isso ajuda a suportar.
Por isso, reduzir o alcoolismo a “autossabotagem” é ignorar sua função inicial.
O problema não é o começo.
É o custo do meio do caminho.
O que era prazer vira alívio.
O que era alívio vira necessidade.
O que era escolha vira obrigação.
E, sem que a pessoa perceba, o álcool deixa de ocupar um lugar na vida —
passa a organizar a vida.
EGOÍSMO OU TENTATIVA DE SOBREVIVÊNCIA?
Uma das narrativas mais cruéis sobre o alcoolismo é a do egoísmo.
Mas quem convive clinicamente com alcoolistas sabe: o álcool raramente é expressão de excesso de amor-próprio.
Na maior parte das vezes, ele é tentativa de lidar com um mal-estar que não encontra palavras.
A psicanálise nunca leu o alcoolismo como simples desvio de conduta.
Ela o compreende como uma solução psíquica — precária, custosa, mas solução — para conflitos que não puderam ser simbolizados.
Donald Winnicott descreveu como certas falhas no cuidado emocional levam o sujeito a buscar apoios externos para sustentar a própria existência.
O álcool pode ocupar esse lugar: uma muleta psíquica, um amortecedor do viver.
O ALCOOLISMO COMO SINTOMA
Aqui é importante ser preciso: ver o alcoolismo como sintoma não é uma visão incompleta.
É uma leitura psicanalítica legítima e profunda.
Na psicanálise, o sintoma não é algo superficial a ser eliminado.
Ele é uma formação do inconsciente, uma resposta possível — ainda que dolorosa — ao sofrimento psíquico.
O álcool, nessa leitura, não é apenas consequência de ansiedade, depressão ou trauma.
Ele se torna um operador central da economia psíquica, regulando afetos, sustentando defesas, organizando a relação do sujeito com o mundo.
Em determinado momento, não faz mais sentido perguntar se o álcool é causa ou efeito.
Ele passa a ser estrutura.
Isso não diminui sua gravidade.
Ao contrário: explica por que parar é tão difícil.
QUANDO O SINTOMA SE AUTONOMIZA
A psicanálise também reconhece um ponto crucial: há um momento em que o sintoma deixa de apenas expressar o sofrimento — e passa a produzi-lo.
O álcool que antes tamponava a angústia passa a gerar novas angústias.
O recurso vira problema.
A solução vira prisão.
Nesse ponto, compreender o alcoolismo como sintoma ajuda a entender por que o sujeito não consegue simplesmente “parar quando quer”.
Mas compreender não substitui o ato.
TRANSTORNO, DESVIO OU FALTA DE CARÁTER?
Historicamente, o alcoolismo já foi tratado como pecado, crime e falha moral.
Essas narrativas ainda circulam — muitas vezes disfarçadas de “opinião”.
A ciência é clara: alcoolismo não é desvio de caráter.
Mas isso não significa ausência de responsabilidade.
Aqui está uma distinção essencial: responsabilidade não é culpa.
Responsabilidade começa quando alguém reconhece seus limites reais — inclusive o limite de não conseguir controlar o álcool.
INFORMAÇÃO É IMPORTANTE. AÇÃO É DECISIVA
Vivemos um paradoxo: nunca se falou tanto sobre álcool e saúde mental, e ainda assim se bebe muito para anestesiar a vida.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, o álcool está entre os principais fatores de risco evitáveis para adoecimento, violência e morte precoce no mundo.
A informação existe.
O acesso existe.
Mas a mudança não acontece no campo do saber.
Ela acontece no campo da decisão cotidiana.
O VERDADEIRO DIVISOR DE ÁGUAS
Existe um momento silencioso na história de muitos alcoolistas: quando a tentativa de controle se torna mais cansativa do que a própria bebida.
Não se trata de quantidade.
Nem de frequência.
Trata-se da relação.
A vida vira um cálculo permanente: quando beber, quanto beber, como beber, como esconder, como compensar.
Reconhecer a impossibilidade de controle não é derrota.
É lucidez.
SOBRIEDADE NÃO COMEÇA NA DEFINIÇÃO. COMEÇA NO ATO.
A filosofia existencial lembra algo simples: não somos definidos pelo que sabemos, mas pelo que fazemos diante do que sabemos.
Discutir se o alcoolismo é doença, sintoma ou transtorno é importante.
Mas nenhuma dessas respostas substitui a decisão concreta de não beber hoje.
A sobriedade não exige certeza teórica.
Exige presença, repetição e compromisso com a realidade.
O QUE IMPORTA, NO FIM
Talvez o alcoolismo seja tudo isso ao mesmo tempo: doença, sintoma, prazer, prisão, tentativa de sobrevivência.
Mas nenhuma definição muda o essencial: se o álcool está tirando mais do que entrega, algo precisa mudar.
Mais importante do que saber o que é alcoolismo é reconhecer o que o álcool faz com você.
E agir a partir disso.
Rafa Pessato
Embriague-se de si!













