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ALCOOLISMO: Alívio que não cabe dentrode uma garrafa

Muitos bebem buscando alívio. Mas o que isso realmente significa?

Poucas palavras aparecem tanto nos relatos de quem bebe quanto a palavra alívio.

Ela surge como explicação, justificativa e defesa: beber para aliviar o dia, aliviar a cabeça, aliviar o corpo, aliviar a vida.

Raramente o álcool é buscado apenas pelo sabor.

Ele é buscado como promessa de descanso, pausa e silêncio interno.

O problema é que o alívio que se procura não cabe dentro de uma garrafa — e nunca coube.

 

O QUE AS PESSOAS REALMENTE BUSCAM QUANDO BUSCAM ÁLCOOL

Do ponto de vista clínico, a maioria das pessoas não bebe porque gosta de estar bêbada. Elas bebem porque não suportam como estão quando estão sóbrias, por mais que não admitam.

Dados do Instituto Nacional sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo, órgão vinculado ao Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIAAA), mostram que níveis elevados de estresse, ansiedade e sofrimento emocional aumentam significativamente o risco de consumo problemático de álcool.

Isso desmonta a ideia moralizante de que o alcoolismo nasce do excesso ou da falta de controle. Na prática, ele nasce de uma tentativa repetida de reduzir um desconforto interno que parece não ter saída.

 

PRAZER NÃO É EUFORIA — É ALÍVIO

Existe uma confusão comum quando se fala em álcool: chamar de prazer aquilo que, na verdade, é alívio.

Na psicanálise, prazer não significa ganhar algo bom ou viver uma sensação intensa. Para Sigmund Freud, prazer está ligado à diminuição da tensão psíquica. É quando algo que apertava por dentro afrouxa. Quando o corpo deixa de estar em estado de alerta.

Em termos simples: prazer, para Freud, é alívio.

Por isso, o álcool não promete felicidade. Ele promete desligamento.

Não promete alegria. Promete silêncio.

E isso explica por que ele funciona no começo.

 

O QUE O ÁLCOOL FAZ NO CORPO: O ALÍVIO QUÍMICO

Do ponto de vista biológico, o álcool é um depressor do sistema nervoso central. Ele aumenta a ação do GABA, neurotransmissor ligado ao relaxamento, e reduz a atividade do glutamato, associado à excitação neural.

Além disso, estimula a liberação de dopamina, criando uma sensação momentânea de bem-estar. Relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS) explicam que esse conjunto de efeitos produz uma redução temporária da ansiedade e da tensão corporal.

O ponto central é este: o álcool não acrescenta algo positivo à vida.

Ele retira, por alguns instantes, aquilo que dói.

 

QUANDO O ALÍVIO VIRA ARMADILHA

O corpo aprende rápido. Se uma substância reduz a tensão, o organismo passa a pedir essa substância sempre que o desconforto aparece.

Com o uso repetido, o cérebro se adapta. O que antes aliviava passa a ser necessário apenas para não piorar. Esse processo é descrito pela OMS como tolerância e dependência.

O paradoxo do alcoolismo é cruel: o álcool, que era usado para aliviar, passa a aumentar o sofrimento.

Ansiedade, irritabilidade, insônia e inquietação crescem. O corpo já não sabe relaxar sem a bebida.

 

QUANDO O “PRAZER” SOME, MAS A BEBIDA CONTINUA

Há um momento silencioso em que o alcoolista percebe que beber já não traz alívio verdadeiro. Mesmo assim, continua.

Não porque dá prazer.

Mas porque sem beber tudo parece pior.

Esse é um ponto importante, inclusive para quem tenta se culpar: quando o álcool vira necessidade, ele já não está ligado ao prazer — está ligado ao medo do desconforto.

O corpo não pede bebida.

Ele pede alívio.

 

O ALÍVIO COMO QUESTÃO EXISTENCIAL

Existe ainda uma camada mais profunda nessa busca. O sofrimento que leva ao álcool não é apenas químico ou emocional. Ele é existencial.

Pensadores existencialistas como Viktor Frankl mostraram que o ser humano sofre quando perde sentido, direção e pertencimento. O álcool aparece como uma forma de suspender perguntas difíceis: quem eu sou, por que estou tão cansado, por que viver assim pesa tanto.

O álcool não resolve essas perguntas.

Ele apenas as adia.

E tudo que é adiado volta — geralmente com mais força.

 

O QUE O ALÍVIO PROMETIDO PELO ÁLCOOL NÃO ENTREGA

O alívio químico:

  • não ensina o corpo a relaxar sozinho
  • não constrói recursos internos
  • não reduz o estresse estrutural da vida

Segundo o NIAAA, o uso contínuo de álcool prejudica os sistemas cerebrais responsáveis pela autorregulação emocional, tornando a pessoa mais vulnerável ao estresse e menos capaz de lidar com frustrações.

Por isso, a garrafa nunca é suficiente.

 

TRÊS FORMAS SIMPLES DE ACESSAR ALÍVIO SEM ÁLCOOL

Simples não significa fáceis.

Significa reais, corporais e possíveis.

 

1. RESPIRAÇÃO LENTA E CONSCIENTE: ALÍVIO NO CORPO

A respiração é uma das poucas funções do corpo que podem ser reguladas conscientemente. Estudos da Associação Norte Americana de Psicologia (APA) mostram que a respiração lenta ativa o sistema nervoso parassimpático e reduz os níveis de cortisol, hormônio do estresse.

Não é técnica espiritual.

É fisiologia básica.

 

2. MOVIMENTO CORPORAL: DESCARREGAR A TENSÃO

Estresse é energia acumulada no corpo. O álcool anestesia essa energia. O movimento a descarrega.

Pesquisas do Instituto Nacional de Saúde Mental (NIMH) indicam que atividades físicas leves e regulares reduzem ansiedade, melhoram o humor e diminuem o desejo por substâncias.

O corpo não quer beber.

Ele quer se mover.

 

3. NOMEAR O QUE SE SENTE: ALÍVIO PSÍQUICO REAL

Dar nome ao que se sente organiza o caos interno. Estudos em neurociência afetiva mostram que nomear emoções reduz a ativação da amígdala, área ligada à reação impulsiva.

O álcool silencia emoções.

A palavra regula.

 

ALÍVIO NÃO É FUGA. É REGULAÇÃO.

Escapar é sair de si.

Aliviar é permanecer — com menos peso.

A sobriedade não promete ausência de desconforto. Ela oferece algo mais honesto: capacidade de atravessá-lo.

Pois, o que o álcool fazia de forma química e provisória, a recuperação ensina de forma real: respirar, sentir, descansar, sustentar a própria vida sem fugir de si.

O álcool prometeu alívio.

A sobriedade ensina a produzi-lo.

 


Rafa Pessato

Embriague-se de si!

rafapessato.eu