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E AGORA QUE A FESTA ACABOU? Sóbrio ou de ressaca: como se reconectar quando o barulho acaba

A festa acaba sempre antes do que parece.

Não há um instante claro em que ela termina — apenas um momento em que o excesso não se sustenta mais. A música diminui, as conversas se repetem, os risos perdem precisão. Alguém recolhe um casaco. Alguém boceja. O tempo muda de textura.

E então, ficam os copos.

E ficam os corpos.

Copos espalhados, vazios, alguns tombados de lado, outros ainda com restos de líquido morno no fundo. Corpos espalhados, cansados, alguns deitados, outros sentados no limite da própria energia, todos um pouco fora de lugar.

A festa acabou.

E agora é impossível não ver.

 

COPOS NO CHÃO, CORPOS EM QUEDA

Os copos caídos são sempre mais do que objetos esquecidos. Eles contam uma história. Foram erguidos muitas vezes, brindaram, sustentaram promessas provisórias. Serviram para empurrar o tempo, para anestesiar o silêncio, para dar ritmo ao que precisava durar mais do que durava por si.

Quando caem, revelam o óbvio: estavam cheios para cumprir uma função, agora estão vazios. E não há drama nisso. Apenas consequência.

Com os corpos acontece algo parecido.

Depois da festa, eles também caem — não necessariamente no chão, mas em si. Perdem a postura social, a performance, a tensão que os mantinha acordados. O corpo não finge por muito tempo. Ele cede.

A vida depois da festa começa exatamente nesse ponto: quando já não dá mais para sustentar o excesso.

 

O SILÊNCIO QUE SOBRA NÃO É VAZIO

Quando o barulho acaba, o silêncio não vem limpo. Ele chega carregado. Carregado de sensação, de pensamento solto, de um cansaço que não é só físico. O silêncio do depois é denso porque contrasta com tudo o que veio antes.

Há quem tente preenchê-lo imediatamente.

Há quem se apresse em limpar a casa, recolher os copos, organizar o ambiente — como se a ordem externa pudesse apagar o descompasso interno.

Mas o silêncio permanece.

Porque ele não está no espaço. Está no corpo.

 

Chama-se ressaca quando o corpo denuncia o excesso. Mas essa palavra curta abriga muitas camadas. Há a ressaca química, evidente. E há uma outra, mais silenciosa: a ressaca de ter ido longe demais de si.

Ela aparece como um peso no peito, uma irritação sem alvo, uma tristeza sem narrativa. Mesmo quando não houve bebida. Mesmo quando tudo “deu certo”.

A festa exige um tipo específico de presença — expansiva, disponível, ruidosa. O depois exige outro: íntimo, recolhido, honesto. A transição entre uma e outra não é suave. Ela é sentida no corpo.

 

A SOBRIEDADE DO DIA SEGUINTE

Há uma sobriedade que não depende do copo. Ela chega quando o estímulo cai e não há mais onde se apoiar. É a sobriedade do dia seguinte. Aquela em que não se está embriagado de nada — nem de álcool, nem de gente, nem de expectativa.

Essa sobriedade é desconfortável porque expõe.

Expõe o cansaço.

Expõe a solidão.

Expõe perguntas que não cabem na festa.

Mas também é nela que algo se reorganiza.

 

A ADICÇÃO COMO TENTATIVA DE NÃO CAIR

A adicção pode ser lida como um esforço constante para evitar essa queda. Não cair no corpo. Não cair no silêncio. Não cair na própria presença. Manter-se suspenso, estimulado, ocupado.

O copo ajuda. A festa ajuda. O barulho ajuda.

Tudo ajuda a não tocar o chão.

Mas o chão chega. Sempre chega.

E quando chega, revela que talvez não fosse o álcool o problema principal, mas a dificuldade de sustentar o próprio peso quando não há estímulo suficiente para distrair.

 

O DIA SEGUINTE NÃO É MORAL — É FÍSICO

O corpo não moraliza. Ele não pune, não acusa, não cobra. Ele apenas responde. Responde ao ritmo imposto, ao excesso acumulado, à ausência prolongada de pausa.

Quando o corpo cai depois da festa, não está dizendo “você errou”. Está dizendo “chega”. Chega de sustentar algo que não se sustenta mais.

Ouvir isso muda tudo.

 

ENTRE COPOS E CORPOS, ALGO SE APRENDE

Os copos no chão não pedem julgamento. Pedem recolhimento. Os corpos cansados também não. Pedem cuidado.

Talvez o aprendizado do depois da festa esteja justamente aí: tratar o corpo com a mesma delicadeza com que recolhemos um copo quebrável. Sem pressa. Sem culpa. Sem violência.

Habitar esse momento — em vez de apagá-lo — é um gesto raro numa cultura que corre para o próximo estímulo.

 

FLUIR É FICAR QUANDO DÁ VONTADE DE FUGIR

Fluir não é manter-se em festa permanente. É atravessar o depois. É suportar o intervalo. É ficar quando tudo em nós quer preencher, acelerar, anestesiar.

O fluir verdadeiro acontece quando aceitamos a queda sem transformá-la em fracasso. Quando entendemos que o corpo no chão não está derrotado — está exausto.

E o exausto precisa de silêncio, não de mais barulho.

 

A FESTA ACABOU — E ISSO NÃO É O FIM

A festa acabou.

Os copos estão vazios.

Os corpos estão caídos.

E ainda assim, algo pulsa.

Uma respiração mais lenta.

Um tempo mais largo.

Uma chance de voltar.

O depois não exige decisão imediata. Exige presença. Exige apenas ficar com o que sobrou — que, no fundo, é o essencial.

Talvez não seja hora de levantar.

Talvez seja hora de sentir o chão.

 


Rafa Pessato

Embriague-se de si!

rafapessato.eu