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“BEBO POUCO”… mas será que já é demais?

Imagine algum monumento famoso — o Cristo Redentor, a Estátua da Liberdade, a Torre Eiffel, ou mesmo um prédio muito alto. De longe, eles parecem pequenos. Mas, conforme você se aproxima, a proporção muda.

Essa é a ilusão de escala: quanto mais o objeto domina o campo visual, maior ele parece. A ilusão de escala é parecida com a ilusão de controle no álcool.

De longe, o problema parece pequeno — uma taça, um hábito, algo “sob controle”. Mas, quando você se aproxima, vê o tamanho real: o que parecia detalhe é estrutura.

Assim como o Cristo, a Torre, a Estátua, ou qualquer edifício monumental, o vício pode parecer pequeno — mas só enquanto você o observa de longe.

No mundo todo, cerca de 400 milhões de pessoas com 15 anos ou mais vivem com transtornos relacionados ao uso de álcool, e aproximadamente 209 milhões com dependência alcoólica, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

 Sabemos: os números não contam as lacunas, os “quase-dias” em que você diz a si mesmo “só dessa vez”, nem o suspiro que vem depois.

Eles apenas apontam para uma evidência silenciosa: o álcool tem em si um potencial de dependência.

Contudo, assim como a ilusão de escala não afeta todas as pessoas, o alcoolismo também não.

Então, como distinguir o “beber pouco” de um consumo já exagerado?

Você pode estar nessa encruzilhada:

 “Bebo pouco… mas será que já é demais?

A resposta não está apenas nos mililitros, mas no que o “beber” representa no íntimo.

Porque o copo não contém só bebida — ele guarda a promessa fácil de cura para sintomas que ainda não ousamos nomear.

 

O QUE SIGNIFICA “POUCO”?

Quando o ritual se torna repetição compulsiva

A palavra “pouco” carrega uma armadilha.

Para o corpo, o cérebro e a alma, pouco pode ser suficiente para deflagrar uma cadeia que você não vê.

A dependência não aparece de repente. Ela cresce aos poucos, se aloja na rotina, no silêncio depois do último gole, no diálogo interno que vai desaparecendo.

Estudos recentes mostram que, nos Estados Unidos, em 2021, cerca de 10,6% das pessoas com 12 anos ou mais tinham diagnóstico de transtorno por uso de álcool (AUD).

Globalmente, a prevalência varia entre 0,5% e 5% da população, dependendo do país.

Portanto, o que chamamos de “pouco” pode estar, na verdade, ancorado em padrões que fogem ao controle. Mas o que transforma o “pouco” em “demais”?

Mesmo clinicamente, não é apenas a quantidade — é o sentido que o ato toma.

Quando o copo passa a ser cúmplice de um alívio — mesmo que fugaz —, quando esperanças, frustrações e vazios caminham até ele, estamos diante de gatilhos emocionais que alimentam a compulsão.

Pode parecer um “eu relaxo”, “é social”, “eu mereço”. Mas esse “mereço” muitas vezes é um chamado de uma parte sua que não consegue ser vista.

Como diria Viktor Frankl, o vazio — esse nada que nos move — não se preenche com escapismo. E, no copo, muitas vezes está o eco desse vazio que tentamos esconder ou calar.

Aí começa a pergunta inevitável:

 “Será que estou usando a bebida para ter prazer ou fugir do desprazer?”

A linha é tênue. A repetição do gesto — levantar o copo, brindar, lavar o copo, repetir — vira rotina.

E rotina é terreno fértil para a criação de vícios.

O ritual se mascara de normalidade, e a dependência se esconde de nós mesmos.

 

AUTENTICIDADE VS. PRODUTIVISMO ALCOÓLICO

Vivemos numa cultura que valoriza o “mais”: mais produtividade, mais alegria, mais presença, mais resultado.

 Mas o copo, muitas vezes, aparece como atalho: “relaxo”, “me socializo”, “me permito”.

Essa permissão, porém, carrega duas armadilhas:

  1. A ilusão de autenticidade, que parece libertar, mas aprisiona.
  2. A promessa de alívio rápido, que é, na verdade, uma fuga disfarçada.

A dependência se alimenta da urgência — da pressa em apagar o incômodo, enterrar o desconforto, diluir a fronteira entre dor e anestesia.

A vida autêntica, ao contrário, exige presença — e presença dói.

Dói admitir: “acho que posso não dar conta”.

Mas essa vulnerabilidade é, paradoxalmente, o antídoto da compulsão.Quando você bebe “pouco”, mas “já demais”, talvez esteja dizendo:

 “Sim, eu consigo… mas a que custo?”

Qual parte de você está se rendendo ao líquido para não se ver?

Qual parte de você tenta permanecer “legítima” no copo, quando o legítimo é seu desejo de viver sóbrio, inteiro, vulnerável?

Ali está a contradição existencial: o desejo de liberdade versus o cárcere invisível da dependência.

O apetite pelo estado alterado é compreensível numa cultura que silencia a dor, mas cada gole é uma encruzilhada — se o beber se torna alívio automático, você perde a chance de reencontrar sua própria voz.

 

O CICLO INVISÍVEL: GATILHOS, RECAÍDA E SENSAÇÃO DE CONTROLE

Vamos desenhar o ciclo:

  1. Surge um gatilho emocional — tristeza, tédio, culpa, sensação de fracasso, ou algo que você nem sabe nomear.
  2. Vem o pensamento: “Um único gole não vai me afetar.”
  3. O corpo responde: alívio momentâneo, desligamento parcial, negação suave.
  4. O cérebro registra: “isso funciona”. A dopamina se move — e o alívio vira aprendizado químico.
  5. Da próxima vez, o gatilho nem precisa ser tão forte. A rotina já foi criada.
  6. A dependência sussurra: “Basta um.”
  7. “Bebo pouco” vira “bebo para não desabar.”
  8. E o controle desaparece — substituído por culpa, arrependimento e a promessa de “amanhã eu paro.”

Os dados confirmam esse movimento: o consumo recorrente de álcool está associado ao aumento do risco de transtornos, danos cerebrais, envelhecimento precoce e mortalidade.

A tragédia é que muitas vezes a recaída não vem como “voltei”, mas como “só um”.

E esse “só um” é parente íntimo da compulsão.

A autocompaixão, por outro lado, favorece a autorresponsabilidade — conceito diferente da culpa.

Quando o alcoolista instala a culpa como único mecanismo, ele se torna incapaz de enxergar a profundidade da ferida.

E como disse Clarice Lispector:

“Há um tempo para deixar a canção morrer e um tempo para deixá-la nascer.”

O copo, muitas vezes, impede a canção de nascer.

 

CAMINHAMOS NA BEIRA DO ABISMO — E É BOM QUE SE VEJA

Não quero que você leia isso para condenar seu passado ou seu “beber pouco”.

Quero que veja — com clareza, compaixão e gravidade — que caminhar na beira do abismo exige olhar o precipício.

A dependência não pisca luzes vermelhas: ela começa com o silêncio que se finge distração.

Você pode dizer:

 “Mas eu só tomo socialmente, não sinto que perdi o controle.”

Ainda assim, pergunte-se:

  • O copo me serve ou eu sirvo o copo?
  • Depois de beber, há algo que eu escondo, reprimo ou esqueço?
  • Eu bebo para celebrar ou para silenciar?
  • O que eu realmente busco nesse gole?

Quando a bebida vira promessa de dissolver o “eu” — mesmo que por instantes —, você está perdendo pedaços de autenticidade.

E a sobriedade não é ausência de festa — é presença na festa.

É o direito de ser inteiro, sem anestesia.

 

SOBRIEDADE COMO EMBRIAGUEZ DE VIDA

Aqui está o paradoxo libertador: a sobriedade não é o fim da festa — é o convite para outra, uma festa onde você é o convidado principal.

É devolver ao corpo o direito à clareza, à escolha consciente, ao susto da emoção sem fuga.

Como diria Frankl: mesmo em um cárcere interno — o cárcere da dependência —, ainda há um sentido, uma possibilidade de escolha, uma liberdade.

Quando você começa a responder com honestidade à pergunta “Bebo pouco… mas será que já é demais?”, abre-se uma nova paisagem:

  • Você pode beber? Talvez — se for com consciência, sabendo o que o leva até o copo.
  • Você pode recusar? Sim — e essa recusa, por vezes, traz mais presença do que o brinde.
  • Você pode descobrir que o embriagar-se de si é mais intenso do que o álcool.

Quando seu olhar se abre para o instante, para o outro, para o silêncio interno, você está sob efeito não de uma dose, mas de um instante expandido.

Assim, a autenticidade floresce — e com ela, uma nova forma de existir.

O produtivismo e a sobrecarga cedem lugar à presença radical.

Porque essa presença exige o essencial: você mesmo — o eu que ainda não renunciou, o eu que ainda não desistiu.

 

QUANDO O POUCO JÁ É DEMAIS

Se a pergunta “já é demais?” tem te acompanhado, este é o momento de olhar — com coragem e ternura.

Questione-se:

O que me move até o copo?

Que parte de mim quer sair ou se apagar?

Que promessa ele me faz — e quanto dessa promessa é genuína?

A dependência não se define apenas pela quantidade de copos, mas pelo número de silêncios que ela gerou.

Quantas partes de você deixaram de ser escutadas?

Quantas manhãs começaram com o “daqui a pouco eu paro”?

A sobriedade — essa via menos celebrada — pode ser a maior das explorações: uma viagem para dentro, sem anestesia, com total presença.

Você pode aprender a ser amigo de si mesmo — inteiro, vulnerável, autêntico. O copo passa a ser escolha, não prisão.

E no instante em que você escolhe estar presente, você começa a viver a embriaguez de vida — distante do álcool, mas eternizada no ser.


Rafa Pessato

Especialista em Autoconhecimento e Comportamento

 rafapessato.eu