Na busca incessante por intensidade, muitos se perdem nas promessas fáceis do excesso. Mas é possível reencontrar o prazer verdadeiro — aquele que não cobra juros na alma nem fere o corpo.
A PROMESSA DO GOZO RÁPIDO
Vivemos em uma era que transformou o prazer em mercadoria de prateleira. Basta um clique, um gole, uma rolagem infinita no celular para experimentar um sopro de satisfação. Só que esse sopro é curto, exige cada vez mais para manter-se aceso, e, quando se dissipa, deixa o vazio ainda maior. O prazer compulsivo é um empréstimo caro: dá de imediato, cobra depois, e a fatura vem com juros de culpa, ressaca, perda de si.
Na dependência, o corpo pede, mas quem grita é a mente faminta. A bebida não é só bebida, o cigarro não é só fumaça, a droga não é só pó: são atalhos para silenciar o grito interno, rotas rápidas para não encarar o próprio abismo. O prazer se converte em algema quando passa a ser único canal para anestesiar a dor de existir.
Mas seria justo dizer que a culpa é do prazer? Não. O problema não é o desejo em si, mas o descompasso entre o que buscamos e o que realmente nos nutre. Como disse Clarice Lispector, “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” Talvez seja isso: confundimos liberdade com fuga, prazer com esquecimento.
DEPENDÊNCIA: O ESPELHO QUE DEVOLVE O EXCESSO
A dependência química — e também a comportamental — é o espelho mais cruel desse descompasso. Quando a vida se resume a repetir o gesto, quando a garrafa dita o ritmo da semana, quando a tela substitui os olhos de quem amamos, quando o desejo se transforma em compulsão, algo fundamental foi perdido: o equilíbrio.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 3 milhões de pessoas morrem todos os anos devido ao uso nocivo do álcool. E milhões de outras vivem presas a redes invisíveis de compulsões: compras, sexo, comida, jogos, redes sociais. Cada compulsão é uma ilha onde o sujeito acredita encontrar abrigo, mas acaba isolado de si mesmo.
Nietzsche provocava: “Quem tem um porquê enfrenta quase qualquer como.” A dependência mostra justamente a falta desse porquê. A compulsão é o sintoma de uma vida sem norte, de um sentido que não sustenta o peso da existência. Por isso, parar de beber ou largar um vício não é apenas questão de força de vontade. É reencontrar um eixo interno capaz de sustentar o vazio sem precisar preenchê-lo com excessos.
O FALSO BRILHO DO GATILHO
Gatilhos emocionais são como fósforos: acendem rápido, queimam intenso, apagam sem deixar calor.
Um cheiro, uma música, uma briga, uma lembrança — de repente, o corpo inteiro pede anestesia. O cérebro, programado pelo hábito, busca a recompensa conhecida: mais um gole, mais um clique, mais uma fuga.
Estudos em neurociência mostram que a dopamina — o neurotransmissor do prazer — não recompensa apenas a experiência em si, mas principalmente a expectativa dela. Ou seja: muitas vezes o alcoolista já está embriagado antes mesmo de beber, porque o cérebro acendeu sozinho as luzes da promessa. E é por isso que recaídas acontecem não na hora do brinde, mas no instante silencioso em que a mente sussurra: “só hoje”.
Mas a mesma mente que cria atalhos também pode aprender novos caminhos. O segredo não é matar o desejo, mas educar o olhar: encontrar prazer em lugares mais profundos, em gestos simples, em encontros verdadeiros.
O PRAZER DA PRESENÇA
“É preciso ter coragem para olhar nos olhos do dia sem maquiagem química.”
Essa frase ecoa como mantra de quem escolhe a sobriedade. Estar presente dói no começo, porque significa sentir sem filtro: a ansiedade nua, o medo cru, o silêncio sem anestesia. Mas é também o único caminho para descobrir o prazer verdadeiro — aquele que não depende de substância, mas de presença.
Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz, escreveu que “a vida só é insuportável quando lhe falta sentido.” O prazer equilibrado nasce justamente quando o sentido sustenta a experiência. Não é a taça de vinho que dá cor ao jantar, mas a conversa viva com quem partilha a mesa. Não é o cigarro no intervalo que traz alívio, mas a respiração que se faz consciente no meio do caos. Não é a compra parcelada que dá alegria, mas a sensação de ser inteiro sem precisar de adereços.
O prazer da presença é sutil, mas duradouro. É o contrário do choque químico: não explode, floresce. Não cobra ressaca, deixa rastro de paz. Não aprisiona, liberta.
O CAMINHO DA AUTENTICIDADE
Cada recaída traz a pergunta: quem é você sem aquilo que te aprisiona?
Responder a essa pergunta exige coragem. Exige suportar a solidão inicial, o desconforto de não se reconhecer sem a bengala do hábito. Exige aceitar que sobriedade não é ausência de prazer, mas redescoberta dele.
Ser autêntico é parar de terceirizar a alegria. É assumir o protagonismo da própria vida. É aprender a rir sem precisar de álcool, a relaxar sem precisar de tela, a se sentir inteiro sem precisar de aplausos. Como escreveu Beauvoir, “a liberdade é um ato contínuo de criação.” Viver com equilíbrio é esse ato criador diário: inventar-se de novo, mas desta vez sem correntes.
REAPRENDER A CELEBRAR
Há quem pense que sem álcool ou sem compulsões a vida perde cor. Pelo contrário: é quando a lente turva cai que a cor real aparece. O pôr do sol que não precisa ser fotografado. O abraço que não precisa ser postado. A música que vibra dentro do corpo, não na propaganda de cerveja. O prazer se transforma em ritual quando é vivido com presença.
Pequenas celebrações podem ser mais intensas do que grandes fugas. Tomar um café com calma. Ouvir a respiração dos filhos dormindo. Caminhar descalço na grama. Escrever uma carta. Cozinhar algo simples. O equilíbrio não está na ausência de prazer, mas na arte de reconhecê-lo onde ele sempre esteve.
EMBRIAGAR-SE DE VIDA
A dependência é um atalho que rouba o caminho. O equilíbrio é a estrada longa, mas fértil. O prazer com equilíbrio não é raso: é profundo como um rio que corre em silêncio. E a sobriedade não é punição, mas libertação: possibilidade de embriagar-se de vida sem se perder nela.
O desafio de viver com autenticidade não é renunciar ao prazer, mas aprender a cultivá-lo com raízes firmes. Porque só quem já caiu no excesso sabe o valor de caminhar no fio da presença.
No fim, o convite é simples: não se trata de dizer “nunca mais” ou de viver em restrição. Trata-se de aprender a dançar com o desejo, sem deixar que ele conduza. Trata-se de redescobrir que o prazer mais intenso não está no excesso, mas no equilíbrio que devolve sentido à existência.
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento













