O maior inimigo da sobriedade não é a garrafa. Nem a substância ou o comportamento em si. É o disfarce que a mente constrói para adiar o confronto com a própria verdade. Entre um “eu controlo” e um “foi só hoje”, a dependência cava raízes invisíveis. Romper o autoengano é mais difícil do que dizer “não” a um copo: é aprender a dizer “sim” a si mesmo.
O TEATRO ÍNTIMO DA DEPENDÊNCIA
A dependência raramente se apresenta como vilã. Ela veste roupas de amiga: a cerveja compartilhada no churrasco, a taça de vinho para “celebrar”, a dose para “esquecer”. É a comédia da vida que, aos poucos, se transforma em tragédia silenciosa.
O autoengano funciona como dramaturgo dessa peça. Ele cria diálogos convincentes: “você merece”, “só hoje”, “todo mundo faz”. É nesse palco interno que o dependente atua, acreditando ser protagonista, quando na verdade já é coadjuvante de uma força maior.
É nesse ponto que a dependência e a mentira se fundem: não se trata apenas de enganar os outros, mas de convencer a si mesmo de que tudo está sob controle. Uma mentira repetida o suficiente torna-se verdade provisória. E é nessa verdade provisória que muitas vidas se perdem.
O PESO DAS JUSTIFICATIVAS
A ciência já mostrou: o cérebro humano é um mestre em racionalizações. Pesquisas em neurociência (Liu & Potenza, 2021) explicam que o sistema de recompensa se reprograma na dependência. O álcool, por exemplo, deixa de ser apenas prazer momentâneo e passa a ocupar o lugar de necessidade.
Mas o que mais assusta não é o efeito químico. É a narrativa que o acompanha. O dependente não diz: “preciso da substância”. Ele diz: “mereço um descanso”. Ele não confessa: “tenho medo de ficar sóbrio”. Prefere dizer: “não é tão sério assim”.
O autoengano funciona como anestesia moral. Ele cria justificativas que aliviam a consciência por alguns minutos, mas deixam o corpo e a vida sangrando.
GATILHOS EMOCIONAIS: FERIDAS SEM NOME
Uma das maiores armadilhas da dependência são os gatilhos emocionais. O álcool não surge apenas como bebida, mas como resposta automática a um vazio.
Estudos apontam que mais de 60% dos alcoolistas também apresentam transtornos de ansiedade ou depressão. Isso significa que, muitas vezes, o copo não é apenas desejo: é tentativa desesperada de silenciar sintomas.
O autoengano, nesse ponto, é cúmplice: ele convence que a substância “ajuda a relaxar”, quando na verdade reforça o ciclo de ansiedade e tristeza. É como apagar o alarme de incêndio sem apagar o fogo.
O ESPELHO DA NEGAÇÃO
A negação é talvez o estágio mais doloroso do autoengano. Enquanto familiares e amigos percebem as mudanças, o dependente constrói justificativas cada vez mais elaboradas. É o trabalhador que diz “todo mundo bebe no happy hour”. É a mãe que afirma “eu só tomo nos fins de semana”. É o jovem que garante “se eu quisesse parar, eu parava”.
Essa negação não é fraqueza. É defesa. O inconsciente protege a mente da dor de encarar a verdade. Como Winnicott sugeria, muitas vezes criamos “falsos eus” para sobreviver em ambientes hostis. O falso eu dependente diz: “eu estou bem”. Mas, por dentro, a alma pede socorro.
O CICLO INVISÍVEL DA RECAÍDA
Mesmo após períodos de sobriedade, o autoengano reaparece. Ele sussurra: “agora você já está curado, pode beber só um pouco”. E esse “só um pouco” costuma ser o início de uma nova espiral.
O deslize ou a recaída raramente começam no copo, e sim dias antes, em pequenas concessões: descuidar do sono, se isolar, guardar mágoas, se expor a ambientes de risco. A substância é apenas a cena final de uma peça que foi escrita em silêncio.
Por isso, vencer o autoengano é também aprender a perceber os sinais antes que o roteiro se repita.
A SOBRIEDADE COMO ESTÉTICA DA VIDA
Sobriedade não é apenas ausência de substância. É presença radical no cotidiano. É perceber que o café da manhã pode ter mais sabor do que qualquer ressaca. É descobrir que risadas sóbrias duram mais do que gargalhadas embriagadas.
A vida, quando limpa, revela camadas esquecidas. A música soa mais nítida, a pele respira, o sono repousa. Pequenos detalhes — o cheiro da chuva, a conversa distraída, o abraço sincero — voltam a ter o peso que sempre tiveram, mas estavam abafados pelo entorpecimento.
Nietzsche dizia que é preciso “ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante”. A sobriedade é justamente essa dança que nasce do caos vencido.
CAMINHOS PRÁTICOS
Romper o autoengano exige mais do que frases de efeito. Exige prática cotidiana. Mas não se trata de fórmulas mágicas. Trata-se de escolhas sutis:
- Anotar gatilhos: perceber em quais situações o desejo aparece.
- Trocar rituais: substituir a bebida por chá, café, por um livro, por uma caminhada, namoro, ou outro interesse.
- Construir rede: permitir que outras pessoas sejam testemunhas do processo.
- Cultivar autenticidade: aprender a lidar com a vida sem máscaras.
Esses gestos, aparentemente simples, quebram o ciclo do autoengano e criam uma vida nova, de dentro para fora.
A ESPERANÇA COMO ANTÍDOTO
No fundo, o autoengano nasce do medo: medo de não dar conta, medo da dor, medo de enfrentar o vazio. Mas há algo maior do que o medo: a esperança.
Esperança não é ilusão. É força real que move passos. Viktor Frankl, sobrevivente de campos de concentração, lembrava que o ser humano pode suportar quase tudo, desde que tenha um “para quê”.
Na sobriedade, esse “para quê” pode ser a saúde, os filhos, a dignidade, a vida plena. Quando o dependente encontra um motivo maior do que a substância, o autoengano perde poder.
A VERDADE QUE LIBERTA
O caminho da dependência é sempre acompanhado por máscaras. O da sobriedade, por verdades. Romper com o autoengano não é fácil. É doloroso como tirar um espinho encravado na alma. Mas, uma vez retirado, a ferida pode cicatrizar.
O triunfo da sobriedade não é espetacular. É silencioso. É acordar num domingo sem ressaca. É rir de verdade sem precisar de anestesia. É olhar no espelho e reconhecer-se.
A vida sem autoengano é vida com autenticidade. E a autenticidade, ainda que frágil, é mais forte do que qualquer fuga.
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento













