A vida não é uma linha reta — é um rio. Às vezes manso, às vezes em fúria. Quem carrega a dependência dentro do peito sabe como é fácil se afogar nos redemoinhos da própria mente, nos gatilhos emocionais que parecem puxar para o fundo, na vontade imediata de calar a dor com um gole, uma dose, um escape qualquer.
Mas a sobriedade é aprender a nadar outra vez.
Não no mesmo rio de antes, turvo e cheio de lodo, mas em águas que pedem coragem para mergulhar sem anestesia. Sobriedade é remar contra a correnteza dos velhos vícios, mas também aprender a se deixar levar pela fluidez da vida, pelo simples movimento de existir sem se esconder.
E é aí que entram os hábitos.
Hábitos não são apenas tarefas na agenda ou repetições mecânicas — são trilhas abertas no corpo e na alma. O que hoje parece esforço, amanhã se torna natural. O que hoje exige disciplina, amanhã flui quase sozinho. Repetir um hábito é como cavar um leito novo para o rio, até que a água da vida escolha passar por ali sem resistência.
No caminho da sobriedade, criar hábitos é mais do que estratégia: é salvação.
Abaixo, sete hábitos que não se aprendem em manuais, mas no cotidiano, no tropeço e no recomeço. Não são regras, mas gestos de cuidado com a própria vida. Eles pertencem à seção que chamo de FLUIR, porque não se trata de endurecer, mas de deixar a vida correr dentro de você.
1. Acordar para si mesmo antes de acordar para o mundo
Não é sobre abrir os olhos, mas sobre abrir a alma. Ao despertar, há um instante em que o silêncio ainda não foi invadido pelas exigências externas. Se, nesse momento, você se volta para dentro — respira, sente o corpo, agradece por estar vivo — já começa o dia lembrando que não precisa correr atrás de nada para ser inteiro. Esse pequeno ritual é um antídoto contra o automatismo que alimenta recaídas.
2. Fazer da água uma companheira
Quem já viveu na embriaguez sabe como o corpo foi negligenciado. O simples gesto de beber água não é banal: é um ato de reconciliação. Cada gole hidrata também a alma, como se dissesse: “Eu me cuido. Eu me respeito.” Com o tempo, o corpo aprende a pedir água em vez de álcool.
3. Escrever para não explodir
As palavras engasgadas podem virar tempestade. A escrita é um hábito de limpeza — põe para fora o que corrói por dentro. Não importa se é um diário, um bilhete para si mesmo ou uma carta nunca enviada: escrever organiza o caos, dá forma ao invisível e abre espaço para a autenticidade.
4. Andar como quem descobre o chão
O vício prende, paralisa, fecha o horizonte. O simples hábito de caminhar, mesmo que por poucos minutos, faz o corpo lembrar que existe movimento além da compulsão. Andar é metáfora: passo após passo, a vida se reconstrói. E quando a mente grita, os pés respondem: “Ainda estou aqui. Ainda sigo.”
5. Criar um canto de refúgio
Não se trata de luxo, mas de sobrevivência. Pode ser uma cadeira perto da janela, um tapete no chão, uma vela acesa. Um lugar onde o corpo reconheça: “aqui posso respirar”. Esse espaço físico se torna também espaço interno. Quando os gatilhos emocionais baterem, você sabe para onde voltar.
6. Cultivar encontros verdadeiros
A dependência isola, cria muros, alimenta a mentira. O hábito de se abrir em conversas sinceras — com um amigo, um grupo de apoio, uma comunidade — quebra o silêncio que mata. Ninguém sustenta a sobriedade sozinho. O encontro é o lembrete de que você existe também nos olhos do outro.
7. Dormir como quem se entrega
A insônia da mente inquieta é um veneno. Criar o hábito de preparar o sono é um gesto de confiança: desligar telas, alongar o corpo, ouvir uma música calma. Dormir não é fugir, mas permitir que a vida cuide de você enquanto descansa. Cada noite bem dormida é uma vitória contra o caos.
FLUIR É PERMITIR-SE SER RIO
Esses sete hábitos não são mandamentos, mas convites.
Convites para lembrar, todos os dias, que você não é a dependência. Você é quem cria os caminhos pelos quais sua vida corre.
A sobriedade não é um estado rígido, mas um fluir — às vezes lento, às vezes turbulento, mas sempre vivo.
E se cair, não esqueça: o rio não para. Sempre há outra margem. Sempre há um recomeço.
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento