Home / SUPERAR / Como transformar a RECAÍDA em RECOMEÇO sem culpa

Como transformar a RECAÍDA em RECOMEÇO sem culpa

Sejamos sinceros, a maioria de nós não gosta de admitir uma falha.

É como se a queda revelasse não apenas nossa fragilidade, mas também uma espécie de sentença: “você não serve para ser livre”. No entanto, essa voz dura, quase sempre, não é a nossa essência falando, mas o eco do vício tentando nos manter acorrentados. O deslize não é o fim da estrada. É um tropeço no caminho, um convite incômodo a parar, respirar e escolher novamente.

Quantas vezes já acreditamos que tudo se perdeu porque um copo foi erguido, uma compulsão foi alimentada, um comportamento antigo nos engoliu por alguns minutos? É doloroso, mas não é definitivo. A vida não é feita de uma linha reta, e sim de curvas, desvios e retornos. O deslize pode ser o instante em que aprendemos, de maneira crua, que a sobriedade não é perfeição, mas prática.

 

A FERIDA QUE INSISTE EM NOS ENSINAR

Existe uma diferença essencial entre o deslize e a recaída: o primeiro é a fissura momentânea, o segundo é o mergulho prolongado de volta ao vício. O deslize é como uma rachadura no vidro: pode assustar, mas não significa que toda a janela precisa ser destruída. Já a recaída completa é quando deixamos a rachadura se alastrar até não restar transparência.

Ambos doem. Ambos nos fazem sentir frágeis. Mas o que mais dói, muitas vezes, não é a ação em si, e sim a culpa que vem depois — a sensação de que não temos valor, de que voltamos para a estaca zero. Essa narrativa interna é perigosa, porque alimenta a ideia de que “já que falhei, que se dane, vou afundar de vez”. E é nesse ponto que o deslize pode ser transformado em recomeço: quando conseguimos olhar para a falha como parte da caminhada, não como anulação de todo o caminho percorrido.

A culpa é uma pedra amarrada ao pé: ela nos impede de levantar. Já a responsabilidade é diferente: ela olha para o erro e pergunta “o que posso aprender daqui?”.

 

A ARTE DE LEVANTAR-SE

Nietzsche dizia que é preciso ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela que dança. Talvez o deslize seja justamente esse caos: a lembrança de que ainda carregamos restos daquilo que um dia nos dominou. Mas também pode ser o ponto de partida para que a estrela volte a dançar, agora com mais consciência.

Um deslize não precisa ser visto como fracasso, mas como um lembrete da nossa humanidade. Ninguém atravessa a vida ileso. O vício, quando perde espaço, grita, esperneia, tenta voltar — e às vezes, por instantes, consegue. Mas a força não está em nunca tropeçar: está em não permanecer caído.

Transformar o deslize em recomeço é fazer dele uma pausa para reavaliar: quais gatilhos emocionais estavam presentes? O que me fragilizou? Eu estava cansado, solitário, eufórico demais? Estava evitando olhar para uma dor antiga? Muitas vezes, a fissura não nasce no copo, no cigarro, no clique compulsivo: nasce na solidão que ficou sem palavras, no vazio que não foi abraçado, no medo que não foi confessado.

 

DESLIZE NÃO É RECAÍDA

Aqui é importante fixar: deslize não é recaída.

O deslize é momentâneo, episódico. Ele pode ser usado como experiência para fortalecer a sobriedade. A recaída é quando desistimos de aprender com o deslize e nos entregamos novamente ao ciclo destrutivo.

Por isso, reconhecer o deslize rapidamente, sem culpa, é essencial. É como tropeçar andando na rua: você pode levantar-se, limpar a poeira e seguir. Mas, se fingir que não aconteceu e continuar tropeçando sem olhar para o chão, em breve estará caído, machucado, sem forças para levantar.

O perigo não está apenas no ato de beber ou consumir, mas na narrativa que contamos para nós mesmos depois dele. Se dissermos “falhei, então sou um fracasso”, alimentamos o ciclo do vício. Se dissermos “tropecei, mas posso aprender”, damos a nós mesmos a chance de seguir.

 

A DELICADEZA DO CUIDADO CONSIGO

Um deslize é, paradoxalmente, uma oportunidade de autocuidado. Ele expõe nossos pontos vulneráveis. E não é preciso gritar com eles, mas escutá-los. Freud já dizia que aquilo que não é expresso retorna como sintoma. O vício é, muitas vezes, um sintoma. O deslize é o sintoma lembrando: “há algo em você que ainda pede atenção”.

Cuidar de si após um deslize é como cuidar de uma ferida: não adianta arrancar a casca com raiva; é preciso limpar com delicadeza, colocar um curativo, dar tempo para que a pele se regenere. Assim também é com a alma.

 

A CORAGEM DO RECOMEÇO

Kierkegaard dizia que a vida só pode ser compreendida olhando para trás, mas deve ser vivida para frente. O deslize pode fazer sentido depois, quando o olhamos como parte da narrativa que nos constrói. Mas, no instante em que acontece, a única saída é seguir em frente.

O recomeço não é um castigo. É um privilégio. É a possibilidade de, mesmo depois de ter tropeçado, decidir novamente pela vida.

A sobriedade é feita de escolhas diárias. Um deslize não apaga todas as escolhas certas que já foram feitas. Cada passo conta. Cada dia conta. Mesmo quando tropeçamos, a estrada continua à frente.

 

ENTRE QUEDA E VOO

Muitos alcoolistas e dependentes têm medo de que um deslize se torne uma profecia: “sempre voltarei a isso, nunca serei livre”. Mas liberdade não é ausência de quedas; é a possibilidade de levantar-se, quantas vezes for preciso.

Clarice Lispector escreveu: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.” Talvez a sobriedade seja esse “sem nome”: não apenas liberdade do vício, mas autenticidade, coragem de habitar a vida nua, sem anestesias.

O deslize pode ser o lembrete: você ainda é humano. E ser humano significa cair, levantar, reconstruir, amar, falhar e recomeçar.

 

O DESLIZE COMO SEMENTE

O deslize não precisa ser um atestado de fracasso. Ele pode ser semente de consciência. Uma fresta que nos obriga a olhar para dentro, com honestidade. Uma pausa que nos lembra que sobriedade não é linha reta, mas caminho cheio de curvas.

E, sobretudo, o deslize não apaga o valor da sua caminhada. O que você já conquistou permanece. A cada recomeço, você não volta ao início: volta mais consciente, mais forte, mais humano.

Que cada tropeço se transforme em degrau. Que cada deslize seja um chamado para viver com mais autenticidade. E que, mesmo quando caímos, possamos sempre escolher levantar.

 


Rafa Pessato

Especialista em Autoconhecimento e Comportamento

rafapessato.eu