Há quem nunca tenha sentido a fissura e, por isso, a trate como frescura. Mas quem já viveu sabe: a fissura não é vontade comum. É um terremoto íntimo. É como se dentro da cabeça um tambor fosse batido sem parar, lembrando do gosto, do cheiro, do ritual.
A fissura chega como aquele vizinho inconveniente que toca a campainha de madrugada: não pede licença, não tem hora marcada, não respeita sua decisão. Chega e ocupa o espaço. A ansiedade, por sua vez, é o eco desse visitante indesejado: o coração dispara, a respiração se encurta, os pensamentos correm mais rápido do que as pernas.
Quem vive na dependência sabe que não se trata de fraqueza, mas de um sequestro temporário da vontade.
PRIMEIRA MANEIRA: DAR NOME AO MONSTRO
Quando a fissura chega, ela parece infinita. Mas nomear é um ato de coragem. Ao dizer “eu estou em fissura”, você separa-se dela. Você não é a fissura, você a observa.
É como olhar para um cachorro raivoso preso atrás de um portão: o medo continua, mas você sabe que há uma grade entre vocês. Nomear é essa grade. É a diferença entre ser engolido e ser testemunha.
SEGUNDA MANEIRA: RESPIRAR COMO QUEM CAVA UM TÚNEL
A ansiedade que acompanha a fissura parece sufocar. O peito fica estreito, o ar foge. É aí que a respiração se torna uma pá silenciosa, cavando um túnel para fora do desespero.
Inspirar fundo, segurar, soltar devagar. Isso não mata a fissura, mas diminui seu grito. É como se a mente dissesse ao corpo: “eu ainda estou no comando”.
A respiração consciente é um lembrete de que ainda existe espaço entre o impulso e a ação.
TERCEIRA MANEIRA: MUDAR A CENA, TROCAR O CENÁRIO
O vício adora repetição: o mesmo bar, a mesma esquina, a mesma música. A fissura cresce nesses lugares como mato em terreno fértil.
Trocar o cenário pode parecer detalhe, mas é ato revolucionário. Sair do quarto, caminhar, ligar para alguém, mudar a playlist. É como virar a página de um livro pesado. O personagem da fissura continua ali, mas agora você o encontra em outra luz.
QUARTA MANEIRA: OCUPAR AS MÃOS, ENGANAR O CORPO
As mãos são cúmplices da fissura. Elas lembram do peso da garrafa, do formato do cigarro, do estalar do isqueiro. Quando ficam vazias, elas pedem esse ritual.
Ocupar as mãos é enganar o corpo: escrever, rabiscar, apertar uma bolinha, cozinhar, lavar louça. Parece banal, mas cada gesto substitui a coreografia antiga. Aos poucos, o corpo aprende novos rituais.
QUINTA MANEIRA: ATRAVESSAR O TEMPO, LEMBRAR QUE PASSA
A fissura parece eterna, mas é uma mentira biológica. Pesquisas mostram que ela costuma durar alguns minutos, no máximo uma hora. Depois, se dissipa como onda.
Saber disso é arma secreta. Quando a fissura vier, diga a si mesmo: “isso vai passar”. Não como autoajuda barata, mas como fato científico. É como atravessar um túnel sabendo que logo há uma saída.
A POESIA ESCONDIDA NA SOBREVIVÊNCIA
Cada vez que alguém atravessa uma fissura sem ceder, há ali uma vitória invisível. Ninguém aplaude, não sai no jornal, mas dentro da alma algo se expande.
É como se a vida testasse a cada dia: “você está aqui por inteiro?”. E cada resposta afirmativa é tijolo na reconstrução do ser.
Sobriedade não é ausência de desejo, mas capacidade de escolher o que sustenta. Não é viver sem gatilhos emocionais, mas aprender a dançar com eles sem se deixar arrastar.
O SILÊNCIO DEPOIS DA TEMPESTADE
A fissura grita. A ansiedade aperta. Mas, depois, vem o silêncio. Nesse silêncio, há espaço para ouvir a própria voz, que não é a voz do vício.
Essas cinco maneiras — nomear, respirar, mudar o cenário, ocupar as mãos, atravessar o tempo — não são receitas prontas, mas pistas. Cada um encontra o seu jeito de transformar o grito em murmúrio, o terremoto em tremor passageiro.
E, nesse processo, o que se descobre não é apenas como evitar a recaída, mas como reencontrar a autenticidade que sempre esteve escondida sob os escombros.
Porque viver sóbrio não é viver sem desejo. É desejar de novo, mas com escolhas que sustentam, não que destroem.
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento













