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“Se você realmente quisesse PARAR DE BEBER, você pararia”

Não sei se você já ouviu de alguém: “quem quer faz, quem não quer dá desculpas”.

É uma frase curta, direta, quase uma pedrada. Ela parece resolver a vida em uma linha: se você não realizou algo, é porque não quis o suficiente. Se continua bebendo, é porque não quer parar de verdade. Se permanece no mesmo emprego, na mesma relação, na mesma cidade, na mesma dor, é porque prefere ficar.

Mas será que o desejo humano funciona assim? Será que querer é suficiente? Ou melhor: todo querer já nasce com força, forma e direção para se tornar realidade?

Essa pergunta importa porque não vale apenas para o alcoolista. Vale para qualquer pessoa. Há quem deseje mudar de país, escrever um livro, terminar uma relação, mudar de profissão, emagrecer, estudar, ter uma casa, um motorhome, um animal de estimação, uma vida mais simples, uma rotina mais livre. Há também quem deseje parar de beber. Muitas dessas pessoas desejam de verdade. Mesmo assim, muitas não realizam.

Então a diferença entre quem realiza e quem não realiza estaria apenas no fato de algumas pessoas “quererem realmente” e outras não? Tenho dificuldade com essa resposta. Ela é simples demais. E, quando uma resposta é simples demais diante de uma vida complexa, eu desconfio.

Porque o desejo não é uma ordem. O desejo não é um plano, nem uma garantia. Muitas vezes, o desejo é apenas um chamado, um incômodo, uma imagem que aparece, uma vontade de ter outra vida. Um “eu não queria mais viver assim” que ainda não sabe se transformar em caminho.

E aqui está uma das confusões: tratamos desejo e realização como se fossem a mesma coisa. Mas não são. Desejar é imaginar uma possibilidade. Realizar é organizar a existência em torno dela. Entre uma coisa e outra existe um território difícil: medo, hábito, história, corpo, circunstância, responsabilidade, limite, linguagem e repetição.

Por isso, quando alguém diz “se você quisesse, faria”, ignora justamente o intervalo mais humano do processo: o espaço entre querer e conseguir.

O DESEJO SOZINHO NÃO SUSTENTA UMA TRAVESSIA

Uma pessoa pode dizer durante anos: “eu queria tanto mudar de emprego”. E pode querer mesmo. Mas o salário pesa, a idade pesa, a economia pesa, os filhos pesam, a insegurança pesa, o medo de fracassar pesa, a falta de repertório pesa, a identidade construída naquele cargo pesa. Então ela fica. Fica querendo sair.

Isso parece contradição, mas é assim que grande parte de nós vive: dividida entre aquilo que deseja e aquilo que consegue sustentar.

Com o álcool, guardadas as devidas proporções, há algo parecido — e algo mais grave. Porque o álcool não é apenas um hábito ruim. Para muitas pessoas, ele virou função. Ele alivia, suspende, entorpece, socializa, dá coragem artificial, apaga por algumas horas, cria uma pausa, promete descanso, promete desligamento, promete uma versão menos dolorida da existência.

A bebida faz mal, sim. Mas, se ela apenas fizesse mal, ninguém se agarraria tanto a ela. O problema é justamente este: antes de destruir, ela oferece alguma coisa. Ainda que cobre caro depois. Ela parece cuidar. No começo, parece companhia. Depois vira invasão.

Para o alcoolista, a bebida não é apenas um objeto externo, uma garrafa que pode ser largada em cima da mesa. Ela pode se tornar uma forma de lidar com a tristeza, com a ansiedade, com a comemoração, com o sono, com a fuga de si, com a necessidade de pertencimento e até com a dificuldade de existir quando existir parece demais.

Então, quando o alcoolista diz “eu quero parar”, pode estar dizendo algo verdadeiro. Mas esse querer precisa enfrentar outro querer: o querer aliviar, esquecer, anestesiar, desaparecer um pouco. Ou seja, não é falta de desejo, mas conflito de desejos. E conflito de desejos não se resolve com humilhação. Resolve-se com lucidez, estrutura e responsabilidade.

O PROBLEMA NÃO É APENAS QUERER, MAS DAR FORMA AO QUERER

Todo mundo tem desejos. Mas nem todo desejo vira projeto e realidade. Essa é uma diferença fundamental. Uma coisa é dizer: “eu queria parar de beber”. Outra é dizer: “eu sou alcoolista. Não posso mudar esse fato. Mas posso escolher não beber hoje e construir uma vida em que a sobriedade faça sentido”.

A primeira frase é desejo solto. A segunda começa a virar direção. E direção não é fantasia. Direção é a forma como organizamos a vida para sustentar aquilo que dizemos desejar.

A pessoa que quer mudar de país precisa organizar dinheiro, documento, idioma, saudade, espera, burocracia e frustração. A pessoa que quer escrever um livro precisa sustentar silêncio, disciplina, revisão, dúvida, exposição e constância. A pessoa que quer mudar de profissão precisa suportar recomeço, insegurança, estudo, comparação e transição. O alcoolista que quer parar de beber precisa sustentar fissura, tédio, perda de identidade, limite, abstinência social, reconstrução do prazer e contato com a própria vida sem anestesia.

Sem forma, o desejo evapora. Porque desejar é bonito no começo. Mas a realização quase sempre inclui partes desconfortáveis: demora, repetição, renúncia, frustração, dias comuns e vontade de desistir.

É aí que muita gente se perde. Não porque não queria. Mas porque queria a imagem final, não a travessia inteira.

A NARRATIVA QUE SUSTENTA A DECISÃO

A forma como uma pessoa narra o próprio desejo muda a maneira como ela age diante dele. Não estou falando de pensamento positivo. Estou falando de estrutura interna.

Existe uma diferença enorme entre dizer “eu nunca mais vou poder beber” e dizer “eu não preciso beber hoje para viver este dia”. Existe diferença entre dizer “não beber é uma merda” e dizer “a sobriedade protege minha vida”. Existe diferença entre dizer “agora não posso nem beber” e dizer “eu escolho não consumir aquilo que me faz mal”.

As palavras não fazem milagre, mas organizam sentido. E sentido importa porque a motivação falha. Falha para quem quer escrever, para quem quer mudar de vida e também para quem quer parar de beber.

Motivação é nuvem. Vai e volta. O que sustenta uma mudança é outra coisa: narrativa, ambiente, repetição, responsabilidade e limite.

Quando a pessoa não cria uma narrativa forte o suficiente para sustentar o desejo, ela volta para a narrativa antiga. E a narrativa antiga do álcool costuma ser sedutora. Por isso, parar de beber não é apenas dizer “não” à bebida. É começar a dizer “sim” para outra história sobre si.

O QUE PODE E O QUE NÃO PODE SER MUDADO

Existe uma pergunta decisiva em qualquer processo de mudança: o que está sob minha responsabilidade e o que não está? Não no sentido raso de “basta querer”, mas no sentido honesto: onde termina minha ilusão de controle e onde começa minha possibilidade real de ação?

O alcoolista não controla o fato de ter desenvolvido alcoolismo, mas deve se responsabilizar pelo que faz com esse fato. Não controla ter uma história, mas pode começar a se relacionar de outro modo com ela. Não controla sentir vontade de beber, mas pode criar distância entre vontade e ação. Não controla o passado, mas pode parar de usá-lo como autorização para repetir. Não controla todos os ambientes, mas pode reconhecer quais lugares enfraquecem e quais sustentam. Não controla a opinião dos outros, mas pode parar de entregar sua direção à aprovação deles.

Essa distinção é essencial porque existem dois abismos: achar que tudo depende de mim e achar que nada depende de mim. O primeiro gera culpa insuportável. O segundo gera passividade. No alcoolismo, os dois aparecem.

Às vezes a pessoa se culpa por tudo: “eu sou fraca”, “eu sou um desastre”, “eu estraguei tudo”, “eu não presto”. Outras vezes, se ausenta de tudo: “eu bebo porque minha vida é difícil”, “eu bebo porque minha família me irrita”, “eu bebo porque tenho ansiedade”, “eu bebo porque ninguém me entende”, “eu bebo porque o mundo é injusto”.

As duas posições são armadilhas. A culpa total paralisa e a desculpa total também. A saída está em mudar o posicionamento: nem tudo é minha culpa, mas assumo a responsabilidade que me cabe.

O LIMITE DO QUE NÃO VOLTA A SER COMO ANTES

Há processos que transformam para sempre. O picles não volta a ser pepino. A pamonha não volta a ser milho. O bolo não volta a ser farinha, ovo e açúcar separados. A madeira que queimou não volta a ser árvore. A imagem pode parecer simples, mas toca em algo importante: certas experiências não podem ser desfeitas.

O alcoolista pode parar de beber. Pode viver bem, reconstruir vínculos, ter uma vida bonita, livre, autêntica e inteira. Pode inclusive envelhecer sóbrio. Mas não pode apagar a história com a bebida. Não volta a ser alguém que nunca desenvolveu uma relação problemática com álcool.

Aceitar isso não precisa ser uma tragédia. Pode ser uma orientação. Pois uma parte do sofrimento nasce da tentativa de negociar com o impossível. A pessoa quer parar de beber, mas também quer voltar a ser alguém que pode beber “normalmente”. Quer a sobriedade, mas sem o limite. Quer a reconstrução, mas sem renunciar à fantasia de controle.

Só que algumas coisas não voltam. E isso não significa que a vida acabou. Significa apenas que a liberdade precisa partir da realidade, não da fantasia.

A fantasia gosta do resultado. O compromisso aceita o processo. A fantasia diz: “eu queria ser outra pessoa”. O compromisso pergunta: “o que eu faço hoje com a pessoa que sou?”. A fantasia diz: “eu queria não ser alcoolista”. O compromisso responde: “isso eu não posso mudar. Mas posso não beber”.

Aqui a frase “se você quisesse parar, pararia” perde sua força. Porque ela não entende que o problema não é apenas querer parar. É conseguir abandonar uma fantasia, como a do “agora vai ser diferente”, para assumir um compromisso. Algumas mudanças só começam quando uma fantasia termina.

QUANDO O DESEJO VIRA DIREÇÃO

Se tantas pessoas desejam tantas coisas e nem todas realizam, qual é a diferença? A diferença não está apenas em querer mais forte. Está em transformar o desejo em direção; em formular melhor o desejo; em criar uma narrativa que sustente o caminho; em distinguir o que pode ser mudado do que precisa ser aceito; em abandonar fantasias que mantêm a pessoa presa; em assumir responsabilidade sem cair na culpa; em repetir uma escolha mesmo quando ela não vem acompanhada de entusiasmo.

No alcoolismo, isso fica ainda mais evidente. Não posso mudar o fato de ser alcoolista, mas posso parar de beber. Não posso voltar a ser quem eu era antes, mas posso participar de quem estou me tornando. Não posso controlar todo desejo que aparece, mas posso decidir quais desejos alimento. Não posso apagar o que vivi, mas posso impedir que o passado continue decidindo por mim. Não posso voltar a ser pepino, mas posso parar de viver conservada no álcool.

Essa é a diferença entre desejo e direção. O desejo diz: “eu queria”. A direção pergunta: “o que sustenta esse querer quando a vontade contrária aparece?”. Porque a vontade contrária aparece. Ela aparece no fim da tarde, na solidão, na raiva, na comemoração, no tédio e naquele pensamento aparentemente inofensivo: “só hoje”.

E é ali, nesse ponto pequeno e perigoso, que a frase “quem quer faz” mostra sua pobreza. Não se trata apenas de querer. Trata-se de construir uma vida em que o querer não fique sozinho; uma vida com limite, linguagem, rede, responsabilidade, sentido, honestidade, menos fantasia e mais chão.

Então, em vez de perguntar apenas “você quer parar de beber?”, a pergunta mais honesta seria: que vida você está disposto a construir para que esse querer não morra na primeira vontade contrária?

Porque o desejo, sozinho, pode virar lamento, promessa repetida, culpa, fantasia ou mais uma frase dita na manhã seguinte. Mas quando o desejo encontra direção, ele começa a mudar de natureza. Deixa de ser apenas vontade e começa a virar caminho.

E, no caso do alcoolismo, caminho não é voltar a ser quem nunca teve problema com álcool. É parar de negociar com aquilo que sequestra a própria vida. É aceitar que algumas coisas não voltam a ser como antes — e ainda assim seguir. É entender que a sobriedade não exige uma vontade perfeita. Exige uma escolha possível, repetida com honestidade.

Um dia. Depois outro. Depois outro.

Até que a pessoa perceba que não apenas parou de beber. Começou a voltar para si.


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

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